Há cinco anos, no auge da pandemia da COVID-19, a SSVP Brasil descobriu que o cuidado vicentino precisava alcançar uma dimensão até então pouco nomeada nas Conferências: a saúde emocional. O isolamento, as perdas, o medo e o desgaste de quem passou a vida cuidando dos outros revelaram um sofrimento silencioso, que pedia escuta. Foi nesse contexto, em junho de 2020, que nasceu a Rede de Afeto: gente cuidando de gente, um programa que reúne psicólogos voluntários para oferecer acolhimento, escuta qualificada e suporte emocional a quem chega marcado por dores invisíveis.
Cinco anos depois, a Rede permanece firme. Mais estruturada, mais ampla e mais necessária. Aquilo que começou como resposta a uma emergência sanitária se consolidou como um serviço permanente da SSVP Brasil, profundamente alinhado ao carisma vicentino e, agora, sintonizado com o Ano Temático de 2026, “Cuidar para servir – Um olhar vicentino sobre a organização a serviço da caridade”.
Quando foi lançada, em 6 de junho de 2020, a Rede de Afeto tinha um público inicial bem delimitado: vicentinos, aspirantes e funcionários das Obras Unidas da SSVP, todos atendidos gratuitamente por meio de tecnologias digitais. Em poucos meses, a procura ultrapassou as expectativas. Já em outubro daquele primeiro ano, diante do volume de demandas que chegavam de familiares, amigos e da população em geral, o programa abriu suas portas para qualquer pessoa em situação de sofrimento emocional, no Brasil ou fora dele.
Hoje, a Rede de Afeto contabiliza mais de 1.170 atendimentos individuais online desde sua fundação. As queixas mais frequentes envolvem ansiedade, depressão, luto, ideação suicida, solidão e o desejo, tantas vezes adiado, de ser ouvido sem julgamento. Sintomas que, embora não tenham começado com a pandemia, ganharam dimensão nova depois dela, e que continuam encontrando pouco espaço de acolhimento na vida cotidiana.
A coordenação do programa está hoje a cargo da psicóloga Silvia Regina Simões Torres da Silva, de São Manuel/SP, vicentina desde 2018, que assumiu a função em janeiro deste ano a convite da Presidente do Conselho Nacional do Brasil (CNB), Elisabete Maria Castro. Para ela, o serviço traduz, em gesto concreto, a essência da vocação vicentina. “A Rede de Afeto nasce como uma expressão concreta da missão da Sociedade de São Vicente de Paulo de promover a dignidade humana por meio do amor ao próximo. Mais do que um serviço, é um gesto de presença: o encontro fraterno que acolhe sem julgamento e busca restaurar a esperança”, afirma.
A Rede de Afeto atende qualquer pessoa que esteja enfrentando sofrimento emocional, seja vicentino, colaborador de Obras Unidas, familiar ou alguém da sociedade civil que tenha tomado conhecimento do serviço. Não há barreiras de filiação, religião ou território. Jovens, adultos e idosos formam o público principal, sendo as mulheres ainda a maioria, embora cresça o número de homens que buscam o cuidado.
O acesso é simples. O primeiro contato é feito pelo WhatsApp (32) 98514-4134, com o preenchimento de uma ficha contendo dados básicos e disponibilidade de horários. A partir daí, a equipe gestora encaminha o paciente ao profissional voluntário mais adequado ao seu caso, e o acompanhamento se inicia de forma ética, sigilosa e responsável. Todas as sessões são online, o que permite atender pessoas em qualquer região do país.
A Rede é formada, atualmente, por 45 psicólogos voluntários distribuídos em diversos estados brasileiros, cada um assumindo o compromisso de acompanhar ao menos um paciente por vez. Para integrar a equipe, é preciso ter registro ativo no Conselho Regional de Psicologia (CRP), experiência clínica e disponibilidade para o atendimento online. O caminho de inscrição é o mesmo dos pacientes: contato pelo WhatsApp do programa.
Há, ainda, um compromisso ético inegociável: o trabalho é integralmente voluntário e a Rede não permite que pacientes atendidos pelo programa se tornem clientes particulares dos profissionais em momento posterior. A gratuidade e o acolhimento são princípios que não se negociam.
A metodologia do programa amadureceu ao longo destes cinco anos. No início, cada paciente tinha direito a um ciclo de cinco sessões. Com o aprofundamento das demandas e a constatação de que cinco encontros eram insuficientes para muitos quadros, o número dobrou: hoje são dez sessões, com possibilidade de continuidade, conforme avaliação clínica de cada caso. Quando o paciente apresenta necessidade de atendimento multiprofissional ou de seguimento mais longo, a equipe identifica o serviço de saúde mais próximo de seu território e faz o encaminhamento adequado.
A Rede também cuida de quem cuida. A cada dois meses, os psicólogos voluntários se reúnem online para discutir casos, refletir sobre temas pertinentes e trocar experiências. Uma vez por ano, todos se encontram presencialmente, em momentos de formação, partilha e confraternização que reforçam o caráter comunitário e fraterno do serviço. Esse cuidado mútuo entre profissionais é o que sustenta a continuidade ética e afetiva do programa.
O trabalho conquistou reconhecimento internacional: em novembro de 2024, a Rede de Afeto foi citada no documento final do Simpósio Internacional da Família Vicentina, realizado em Roma, como exemplo de prática inspiradora que promove a valorização integral do ser humano.
O Ano Temático 2026 da SSVP Brasil convida os vicentinos a redescobrirem o cuidado como expressão concreta da caridade e do serviço aos Pobres. O livro de Cristian Reis da Luz, ex-presidente da SSVP Brasil, lembra que cuidar vai além da ajuda imediata: é também organizar, planejar, ouvir, formar e acolher os próprios confrades e consócias. A vivência vicentina, nesse olhar, se expande para todas as dimensões da pessoa, corpo, mente e espírito.
A Rede de Afeto se inscreve exatamente nesse movimento. Ao oferecer escuta qualificada, acolhimento gratuito e acompanhamento psicológico a quem sofre, o programa demonstra que cuidar da saúde emocional é, também, servir. É reconhecer que a caridade vicentina nunca se limitou à dimensão material e que, diante das dores contemporâneas, ela alcança também o que não se vê: o luto, a ansiedade, a solidão, a perda de sentido.
Para Silvia, essa é a tradução mais fiel do espírito vicentino aplicado à saúde mental. “O voluntariado é um caminho de cuidado que vai em duas direções: quem recebe é acolhido, e quem oferece também se transforma. A Rede de Afeto nasce desse encontro: pessoas cuidando de pessoas, com responsabilidade, ética e amor”, resume.
Apesar dos resultados acumulados nestes cinco anos, a Rede ainda enfrenta uma demanda maior do que sua capacidade atual de atendimento. A lista de espera é uma realidade constante, e a coordenação reforça que o crescimento do número de voluntários é hoje a principal frente de mobilização.
“A Rede de Afeto nasceu de uma urgência e respondeu com amor. Agora, ela precisa responder com estrutura. Cuidar de quem chega, mas também cuidar de como estamos cuidando”, observa Silvia.
Os vicentinos têm papel fundamental nesse fortalecimento, seja na divulgação do serviço dentro de suas Conferências e comunidades, seja na mobilização de psicólogos dispostos a oferecer seu tempo e conhecimento em favor do próximo.
Mais do que um programa de apoio psicológico, a Rede de Afeto é um sinal concreto de como a SSVP Brasil tem respondido aos novos rostos do sofrimento. É o carisma vicentino traduzido em escuta, em presença, em tempo doado. É a confirmação de que, no ano em que a Sociedade reflete sobre o lema “Cuidar para servir”, o cuidado com a vida interior do outro é, e sempre foi, parte inseparável da missão.
Como ensina o próprio livro do Ano Temático, organizar é amar, cuidar é servir, e nenhuma forma de caridade é estranha à Sociedade de São Vicente de Paulo. Na Rede de Afeto, essa verdade encontra rosto, voz e escuta.
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