O Brasil celebra em 27 de agosto o Dia Nacional da Psicóloga e do Psicólogo. A data remete à Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, que regulamentou a formação e o exercício da profissão no país, e foi oficializada como comemoração nacional pela Lei nº 13.407, de 2016. Na SSVP Brasil, a efeméride ganha um sentido próprio: há seis anos, psicólogos de diferentes estados colocam sua formação profissional a serviço da caridade organizada por meio da Rede de Afeto.
Criada em 6 de junho de 2020, durante a pandemia de COVID-19, a Rede de Afeto oferece acolhimento emocional e acompanhamento psicológico gratuito, em atendimento online, a quem vive situações de sofrimento emocional. O serviço é aberto a integrantes da SSVP, a colaboradores das obras vicentinas e também a pessoas sem qualquer vínculo com a Sociedade. Atualmente, mais de 40 psicólogos atuam de forma voluntária no programa, distribuídos por diversas regiões do país.
Coordenadora da Rede de Afeto, a psicóloga Silvia Regina Simões Torres da Silva, da Conferência São José, em São Manuel/SP, explica que o cuidado emocional começa antes de qualquer técnica: começa pela disposição de ouvir.
"Muitas vezes, a pessoa que procura a Rede não precisa inicialmente de respostas ou soluções, mas de alguém que possa escutá-la sem julgamentos, reconhecer sua dor e ajudá-la a compreender melhor o que está acontecendo", afirma.
Esse acolhimento acontece nos atendimentos conduzidos pelos profissionais, mas também na forma como o serviço recebe cada pessoa que chega, com respeito à sua história, às suas fragilidades e ao seu tempo. O acompanhamento é oferecido em um número definido de sessões, com possibilidade de continuidade conforme avaliação clínica; quando o caso exige atenção multiprofissional, a equipe orienta o encaminhamento para serviços de saúde próximos ao paciente. É esse enquadramento técnico e ético que distingue a escuta profissional do conforto ocasional.
Silvia faz questão de desfazer um mal-entendido comum. "Cuidar emocionalmente não significa retirar da pessoa sua capacidade de servir. Pelo contrário, significa ajudá-la a recuperar condições para continuar sua caminhada com mais equilíbrio e consciência", pontua.
A coordenadora vê uma ligação direta entre o trabalho da Rede e o Ano Temático 2026 da SSVP Brasil. "Não podemos falar em 'Cuidar para Servir' sem reconhecer que quem serve também precisa ser cuidado", resume.
"O serviço vicentino nasce da disposição de olhar para o outro, mas esse olhar não pode esquecer aquele que está realizando o serviço", continua. Segundo ela, quem dedica tempo à caridade também enfrenta preocupações, perdas, dificuldades, cansaços e momentos de fragilidade — e a Rede de Afeto existe para que, por alguns momentos, essa pessoa deixe de ocupar apenas o lugar de quem cuida.
"É como se disséssemos: 'Sua história também importa. Seu sofrimento também merece ser acolhido. Você não precisa cuidar de todos sozinho'", descreve.
Essa compreensão não está isolada. Em junho deste ano, a Presidência do Conselho Nacional do Brasil (CNB) convidou todas as Conferências a promoverem, entre 15 de junho e 30 de agosto, ações concretas de cuidado com os próprios membros, de encontros de espiritualidade e rodas de escuta a piqueniques, cafés partilhados e caminhadas. A orientação parte de um princípio direto: "para cuidar bem dos Pobres, é necessário também cuidar daqueles que assumem diariamente a missão da caridade".
Para Silvia, o olhar da Psicologia não é um acréscimo à caridade vicentina, mas parte da forma como a SSVP sempre enxergou a pessoa atendida.
"Quando nos aproximamos de alguém que precisa de alimento, de uma ajuda financeira ou de melhores condições de moradia, estamos atendendo a uma necessidade concreta. Mas aquela pessoa também possui sentimentos, medos, perdas, sonhos, vínculos e uma história", observa. "Cuidar da pessoa é mais do que atender aquilo que ela possui ou aquilo que lhe falta materialmente. É reconhecer sua dignidade."
A coordenadora sintetiza a relação entre as duas dimensões em uma frase: "A caridade material atende necessidades concretas; o cuidado emocional nos ajuda a enxergar a pessoa que existe por trás dessas necessidades".
Além dos atendimentos, realizados integralmente on-line, os profissionais da Rede de Afeto têm sido convidados a participar de encontros promovidos por diferentes Conselhos Metropolitanos, abordando temas variados ligados à saúde emocional. É por esse caminho que o cuidado alcança, de forma mais ampla, os integrantes da Sociedade nas bases.
A Rede de Afeto representa uma mudança importante na forma de compreender o cuidado dentro da SSVP: quem cuida também precisa ser cuidado. E o Dia do Psicólogo permite homenagear os profissionais não apenas pelo exercício da Psicologia, mas pela maneira como colocam seu conhecimento, seu tempo e sua escuta a serviço do outro de forma voluntária.
"Cuidar da saúde emocional de quem serve também é uma forma de caridade", afirma a coordenadora. "Quando cuidamos de quem cuida, fortalecemos suas mãos para continuar servindo, mas também cuidamos de seu coração para que esse serviço continue sendo realizado com esperança, humanidade e amor."
E conclui: "'Cuidar para Servir' não é apenas um tema; é uma maneira de compreender que o cuidado precisa acontecer em todas as direções, inclusive com aqueles que dedicam sua vida a cuidar dos outros".
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