A Campanha da Fraternidade 2026 traz um tema muito conhecido para a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP): Fraternidade e Moradia. Não é raro os vicentinos se unirem e, por meio da solidariedade, usarem tijolos, cimento e areia para construir sonhos para seus assistidos. As casas construídas pelos vicentinos, seja dentro do Projeto 13 Casas da Família Vicentina ou do Conselho Nacional do Brasil, seja por Unidades Vicentinas espalhadas pelo Brasil, são sinal concreto de que a moradia é muito mais que abrigo: é direito, cuidado e presença fraterna.
Cada parede levantada pelos vicentinos carrega o testemunho de uma fé que se transforma em ação, unindo materiais simples à força da comunidade para garantir dignidade, segurança e esperança a quem mais precisa. É a solidariedade e a fraternidade somando para dar abrigo e uma condição de vida mais digna par aqueles que mais precisam. E isso acontece por todo o território nacional e de diferentes maneiras.
Cada casa construída envolve também a construção da dignidade da família assistida, devolve esperança e reacende vocações adormecidas. Foi assim em Mirassol/SP, onde, movidos pela urgência da caridade, os vicentinos transformaram a vida de quatro famílias inteiras! E, em breve, será assim novamente, porque a iniciativa renasce, agora em São José do Rio Preto/SP, como fruto direto da partilha de experiências e da força da comunidade.
A primeira Casa Solidária de Mirassol nasceu da capacidade dos vicentinos olharem e enxergarem o próximo. Antonio Roberto Ferreira Maia, o Roberto, então presidente do Conselho Particular São José, que deu o pontapé inicial do projeto, lembra com clareza de cada detalhe. A família atendida vivia em uma fazenda a seis quilômetros da cidade e enfrentava grandes dificuldades. O pai, tratorista, teve complicações severas de diabete, perdeu uma das pernas e, algum tempo depois, começou a perder também a visão. O deslocamento para consultas era cada vez mais difícil; o emprego havia se tornado inviável. A Conferência São Benedito, que o atendia, acompanhava de perto o sofrimento daquele lar — até que surgiu a pergunta que mudaria tudo: como garantir dignidade a quem já perdeu tanto?
A resposta veio da união. Vicentinos de vários Conselhos Particulares e Conferências se mobilizaram. Organizaram jantares, arrecadaram com profissionais da cidade, comerciantes e moradores materiais, buscaram tijolos, cimento, areia, pedra — “tudo o que fosse possível”, conta Roberto. “Quando já tínhamos um pouco de tudo, contratamos o pedreiro e começamos”, lembra. A casa, destinada ao senhor José Carlos, sua esposa Alcione e os cinco filhos, ficou pronta em janeiro de 2011 e se tornou símbolo de transformação. Seu José Carlos faleceu, mas a família segue morando lá.
A entrega foi marcada por uma missa diante da obra recém-concluída. Roberto se emociona ao recordar o momento em que entregou as chaves: “É um choro de alegria que a gente não consegue explicar. Eles te abraçam como se quisessem agradecer com a alma. É sobrenatural. É a partilha do pão acontecendo ali.” Aquele gesto inaugurou uma nova forma de ação vicentina em Mirassol, que viria a construir outras três casas em 2015, 2018 e 2021. O testemunho virou referência, e o projeto, replicável.
Roberto (com microfone na mão) durante inauguração da casa
Seguindo o exemplo
Foi justamente essa experiência que chegou aos ouvidos de Sinésio Pinto de Castilho, conhecido como Castilho, presidente do Conselho Central de São José do Rio Preto, uma cidade vizinha, a cerca de 15 quilômetros de Mirassol. A partir de conversas com Roberto, reuniões e visitas, o Conselho Central de São José do Rio Preto decidiu colocar em prática seu próprio projeto, começando por um assistido que reúne todos os requisitos: idoso, deficiente visual, trabalhador e sem condições dignas de moradia. “Nosso objetivo é promover a família, mas quando se trata de uma pessoa só, deficiente e esforçada, garantir um lar é ainda mais urgente”, afirma Confrade Castilho.
A história do futuro beneficiado chegou aos vicentinos de São José do Rio Preto por caminhos muito humanos. O senhor Benedito Venâncio, deficiente visual e massoterapeuta formado, já era conhecido na comunidade pela dedicação ao trabalho e capacidade, mesmo diante das próprias limitações. Foi por meio de um desses atendimentos que o contato aconteceu: a esposa de Roberto, de Mirassol, sofria com dores no braço e ouviu falar da competência do massoterapeuta. O tratamento deu resultado, e esse encontro inesperado aproximou ainda mais os vicentinos da realidade de Benedito. Roberto contou a história a Castilho e Benedito passou a ser assistido pela Conferência Santo Antônio.
Quando souberam que ele vivia sozinho, pagando aluguel, e que o proprietário avisara que a casa seria vendida, os vicentinos de São José do Rio Preto buscaram a referência da Casa Solidária lá dos vizinhos de Mirassol. A necessidade se apresentou, e a vocação vicentina respondeu.
Para viabilizar o projeto, os vicentinos de Rio Preto realizaram um “Super Sábado Vicentino” no dia 8 de dezembro de 2025, reunindo voluntários de quatro Conselhos Particulares. Houve bingo, barracas de comida, sorteios e muita mobilização da comunidade. Além disso, uma camiseta autografada pelos jogadores do Mirassol Futebol Clube e enquadrada foi a leilão, arrecadando R$ 58 mil. Já com fundo em caixa, novas ações serão programadas. “A sociedade precisa ver a necessidade e acreditar. Cada pessoa que ajuda se sente parte dessa caridade coletiva”, explica Castilho.
Ainda não está definido se a futura moradia será uma casa já existente, que passará por reforma, ou se será erguida do zero — tudo dependerá das oportunidades encontradas e do melhor custo-benefício para garantir segurança e dignidade ao assistido. Os vicentinos de São José do Rio Preto estimam que, com um investimento entre R$ 120 mil e R$ 140 mil, é possível construir ou adquirir um imóvel simples, funcional e plenamente adequado às necessidades do beneficiado. “A proposta é entregar uma casa de cerca de 40 m², com cozinha, sala e um espaço reservado para que ele possa continuar exercendo sua atividade de massoterapeuta com tranquilidade. Um lar compacto, seguro e acolhedor, projetado para que ele possa viver e trabalhar com dignidade, longe do risco social e das incertezas do aluguel”, explica Confrade Castilho.
Com a integração dos vicentinos das duas cidades do interior paulista, o Casa Solidária cresce baseado na experiência de quem já transformou vidas concretamente e na convicção de que a caridade é uma rede que se expande sempre que alguém dá o primeiro passo.
E é nessa rede que o legado de Frederico Ozanam se mantém vivo, atravessando municípios, realidades e gerações. A futura casa solidária de São José do Rio Preto prova que esse intercâmbio pode acontecer em qualquer lugar do Brasil. Basta que alguém decida começar.
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