O dia 17 de fevereiro, quando se celebra o Dia dos Sete Fundadores, é uma oportunidade de revisitar as origens da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) e renovar o compromisso com a caridade vivida de forma concreta. A data, celebrada em todo o mundo vicentino, convida também ao aprofundamento espiritual e histórico da missão.
Claudia Freitas, advogada, vicentina da Conferência São Jerônimo, em Belo Horizonte, articulista da Coluna “Os Sete Fundadores” do Boletim Brasileiro e autora de diversos textos premiados pelo Conselho Geral Internacional, explica que esse é um momento de voltar às raízes. “Precisamos conhecer cada vez mais como se iniciou essa Sociedade tão importante para a ajuda aos mais necessitados e também para a nossa caminhada espiritual”, afirma.
Ela recorda que a SSVP foi fundada em 1833, na cidade de Paris, em um contexto de profundas transformações sociais. “A França enfrentava grande pobreza urbana, causada pela industrialização e pelo crescimento desordenado das cidades, com exploração da classe operária e intensos debates entre a Igreja, o liberalismo e os movimentos anticlericais.” Segundo ela, havia muitas críticas à Igreja Católica, “baseadas no argumento de que a Igreja não agia concretamente diante da miséria”, lembra.
Foi nesse cenário que surgiu a iniciativa liderada por Frederico Ozanam e seus amigos Emmanuel Bailly, Auguste Le Taillandier, Paul Lamache, François Lallier, Félix Clavé, Jules Devaux. “Como resposta, decidiram viver a fé por meio da caridade prática, visitando os pobres em suas casas. Eles compreenderam que era necessário transformar a fé em ações palpáveis”, explica.
Claudia destaca que a união dos sete jovens foi determinante para a história da caridade organizada. “A união dos sete amigos fundadores representou um marco histórico não apenas para a prática da caridade junto aos mais necessitados, mas também como um forte testemunho de fé cristã vivida na prática.”
Ela explica que, para os Pobres, essa iniciativa significou algo profundamente novo. “Principalmente para os Pobres, essa iniciativa significou esperança concreta, presença amiga e dignidade restaurada.” E completa: “Mais do que gestos ocasionais de ajuda, a caridade passou a ser compreendida como uma missão organizada, fraterna e permanente, sustentada pela fé e pelo compromisso contínuo.”
O diferencial estava na proximidade e na constância. “Antes, as ações de auxílio eram realizadas de maneira isolada e esporádica. Os fundadores passaram a visitar sistematicamente as famílias necessitadas, criando laços de confiança e proximidade.” Para ela, esse gesto marcou a identidade vicentina. “Eles iam ao encontro dos Pobres, visitando-os em suas casas, ouvindo suas histórias e tratando-os com dignidade, amizade e respeito. Essa presença pessoal tornou-se uma marca essencial da atuação vicentina.”
Claudia ressalta ainda que, em um período de fortes críticas à Igreja, o pequeno grupo ofereceu uma resposta concreta. “Esse grupo demonstrou que a fé cristã se comprova por meio de obras concretas de amor. Sua vivência mostrou que a caridade não é apenas discurso, mas ação transformadora.”
Com o tempo, a obra cresceu e se espalhou pelo mundo. “Hoje, a Sociedade de São Vicente de Paulo está presente em mais de 150 países, ajudando milhões de pessoas, mantendo viva a missão iniciada por seus fundadores. O Brasil é considerado hoje o país com o maior número de vicentinos no mundo.”
Claudia também chama atenção para a riqueza humana presente entre os fundadores. “Os sete tinham personalidades e talentos diferentes, e foi justamente essa diversidade de dons que gerou uma complementaridade que fortaleceu a obra vicentina desde o início.”
Ela recorda que Ozanam foi o grande inspirador e articulador, unindo fé e caridade prática, enquanto Emmanuel Bailly ofereceu orientação e organização. “Auguste Le Taillandier ajudava na organização das ações e nas visitas aos Pobres; Paul Lamache demonstrava profunda sensibilidade às necessidades dos mais carentes; François Lallier contribuiu com a elaboração das primeiras regras; Félix Clavé incentivava e motivava o grupo; e Jules Devaux estruturou financeiramente o início do movimento”, detalha.
Para Claudia, esse conjunto de dons mostra que a Sociedade nasceu da comunhão. “O surgimento da SSVP não aconteceu pelo esforço isolado de uma única pessoa, mas pela união de jovens cristãos movidos por um mesmo ideal: aliviar o sofrimento dos mais necessitados de maneira prática e concreta.”
Ela acrescenta que a história revela um ensinamento permanente. “Esses jovens compreenderam a necessidade de transformar a fé em ações palpáveis. Cada um contribuía com talentos distintos: uns organizavam, outros motivavam, outros tinham sensibilidade pastoral, e, juntos, criaram uma rede estruturada de apoio alicerçada na fé.”
Celebrar o dia 17 de fevereiro, portanto, é mais do que recordar um fato histórico. “Esse espírito de complementaridade e trabalho em equipe continua sendo uma marca da SSVP até os dias atuais”, afirma.
Claudia conclui: “Recordar os Sete Fundadores é renovar o compromisso com a caridade, com a fé vivida na prática e com a missão de continuar servindo os que mais precisam.”
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