“Reconhecemos diante de Deus que os Pobres são nossos Senhores e Mestres.” A frase de São Vicente de Paulo atravessou quase quatro séculos e segue presente no vocabulário de quem serve nas Conferências. Mas de onde ela vem? E o que significa, de fato, chamar de “Senhores” as pessoas a quem servimos?
Para responder a essas perguntas, o vicentino Sideny de Oliveira Filho, presidente da Conferência São Francisco de Assis e secretário do Conselho Particular (CP) Nossa Senhora de Achiropita, em São Paulo/SP, volta às raízes da Espiritualidade Vicentina. Ele parte da França do século XVII, marcada pela Guerra dos Trinta Anos, pela fome e pela miséria. Ali, a esmola da nobreza tratava o Pobre como objeto passivo da caridade. São Vicente usou de propósito os termos da sociedade feudal para inverter essa lógica e colocar o Pobre no lugar de Cristo.
A reflexão também percorre o fundamento bíblico da expressão e sua presença no compromisso das Filhas da Caridade. Mostra ainda como ela chegou a Frederico Ozanam e seus companheiros, que a adotaram ao fundar a SSVP, em 1833. Um dos destaques é a carta de Ozanam ao amigo Louis Janmot, de 1836, que o autor recomenda a todo vicentino ler e reler.
Sideny já foi coordenador nacional de jovens, vice-presidente do Conselho Nacional do Brasil (CNB), presidente do Conselho Metropolitano (CM) de São Paulo e coordenador do Departamento de Comunicação (Decom) do CNB. Com essa experiência, ele encerra com um convite atual: viver a “cultura da proximidade” e servir lado a lado, não de cima para baixo. Confira a reflexão na íntegra.
É muito importante conhecermos a origem da Espiritualidade Vicentina para não repetirmos, muitas vezes, coisas que não fazem parte dela.
Nosso caminho para o seguimento de Jesus Cristo se inspira na Espiritualidade herdada de São Vicente de Paulo, que viveu numa época difícil, não muito diferente da que enfrentamos hoje.
São Vicente ensinou: “Reconhecemos diante de Deus que os Pobres são nossos Senhores e Mestres e que somos indignos de lhes prestar nossos pequenos serviços” (SVP, Coste, XI, 393).
Essa exortação está registrada em um dos volumes das Obras Completas de São Vicente de Paulo, reunidas por Pierre Coste, entre suas Conferências Espirituais. Elas foram dirigidas aos três ramos que ele fundou para transformar o atendimento social da época: a Congregação da Missão, as Damas da Caridade (hoje Associação Internacional de Caridades, a AIC) e, fundamentalmente, a Companhia das Filhas da Caridade (junto à Santa Luísa de Marillac).
Para começarmos a entender o contexto histórico dessa máxima, é importante saber que a estruturação da Caridade na França do século XVII começou num período devastado pela Guerra dos Trinta Anos, pela fome crônica e pela extrema miséria que assolava tanto o campo quanto as periferias de Paris.
O Carisma Vicentino tem uma raiz muito forte no conceito fundado na expressão “nossos senhores”, que, inclusive, foi colocada na “fórmula dos votos anuais” (Regras Comuns) das Filhas da Caridade. No documento de compromisso, as Irmãs declaravam explicitamente entregar suas vidas “ao serviço corporal e espiritual dos Pobres e enfermos – os nossos senhores”.
Mas essa expressão não está desvinculada da tradição católica e dos ensinamentos evangélicos. O conceito por trás dela possui profunda raiz e fundamento bíblico, pois São Vicente resumiu nela o espírito de várias passagens evangélicas (Mt 25,40; Lc 10,21; Lc 6,20), em que Jesus Cristo, que é o “Senhor”, se reconhece na figura do Pobre. Por essa lógica teológica, se o Pobre representa Cristo, ele se torna o “Senhor” legítimo de quem se propõe a segui-Lo.
Na Paris das décadas de 1640 e 1650, a assistência aos necessitados era frequentemente praticada pela nobreza de forma condescendente: um ato de esmola vertical, em que o rico se sentia o “benfeitor”, e o Pobre, o “objeto” passivo.
É nesse cenário que São Vicente inverte essa pirâmide social dentro da Igreja, usando intencionalmente os termos jurídicos e sociais da época feudal (“Senhores e Mestres”).
Mas ele não para por aí: ao afirmar que “somos indignos de lhes prestar nossos pequenos serviços”, retirava qualquer vaidade ou orgulho espiritual das pessoas que realizavam o trabalho assistencial.
Quase dois séculos mais tarde, essa “profunda inversão hierárquica e histórica” serviu de base conceitual para que os jovens universitários liderados por Antônio Frederico Ozanam fundassem, em 1833, a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), adotando definitivamente o conceito de que os Pobres guardavam a primazia na missão cristã.
Aos 23 anos, Frederico Ozanam escreveu uma carta ao seu amigo Louis Janmot, datada de 13 de novembro de 1836. É uma carta belíssima, que todo vicentino deveria ler e reler várias vezes. Nela há muitos conceitos clássicos da Espiritualidade Vicentina.
Numa das reflexões dessa carta, Ozanam contextualiza aquilo que São Vicente deixou como legado: “[...] Nossa fraqueza pode encontrar uma tênue escusa no fato de se nos afigurar necessário ver para amar. E nós não vemos a Deus senão com os olhos da fé, e nossa fé é bem fraca. Os homens, porém, e os Pobres, nós os vemos com os olhos da carne. Eles estão ao nosso alcance; podemos colocar o dedo e a mão em suas chagas e os traços da coroa de espinhos são visíveis em sua fronte. Aqui não há mais lugar possível para a incredulidade, e nós deveríamos cair a seus pés e lhes dizer como o Apóstolo: ‘Dominus et Deus meus’ (Meu Senhor e meu Deus). ‘Vós sois os nossos Mestres e nós seremos vossos Servos. Sois para nós as imagens sagradas desse Deus que não vemos. E como não sabemos amá-Lo de outra forma, iremos amá-Lo em vossas pessoas.’”
Eis aí, meus irmãos e irmãs, a origem e o legado desse conceito, que deve nortear nosso trabalho vicentino.
Viver como cristãos vicentinos hoje significa tornar-se pessoas “do encontro”. Não de encontros ocasionais, mas de relações reais, encarnadas e contínuas.
Significa entrar na vida dos que sofrem, não para “curá-los”, mas para caminhar com eles, escutá-los e amá-los. Devemos abandonar o complexo de salvadores.
Os Pobres esperam por nós; esperam ser reconhecidos como o próprio Cristo Sofredor.
Como ensinaram e viveram São Vicente e, depois, Ozanam e seus companheiros, que aprenderam esse legado com a Irmã Rosalie Rendu, o caminho vicentino não é de cima para baixo, mas lado a lado.
Trata-se de construir uma “cultura da proximidade”, expressão muito utilizada pelo nosso saudoso e querido Papa Francisco, na qual ninguém é demasiado humilde para nos ensinar e ninguém é demasiado importante para nos servir.
Cada Conferência Vicentina deve olhar para os seus assistidos entendendo essa máxima de nossa Espiritualidade. Cuidamos do próprio “Jesus Sofredor”, nosso Senhor, e dele aprendemos como o amor pode transformar a vida de nossos assistidos e, mais, resgatar a dignidade de filhos de Deus. Quem entra na SSVP deve buscar esse caminho para a santidade e aprender com nossos Senhores e Mestres que a chave do Céu está em suas mãos.
“Servidor dos Pobres é o mesmo que dizer servidor de Jesus Cristo” (SVP, Coste, IX, 302).
Confrade Sideny de Oliveira Filho – Conferência São Francisco de Assis, Conselho Particular Nossa Senhora de Achiropita, Conselho Central Norte de São Paulo, Conselho Metropolitano de São Paulo
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