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No caminho de Isabel Cristina: jovens vicentinos e a santidade de todo dia

No Dia de Todos os Santos, três jovens de Minas Gerais contam como a história da beata vicentina os levou às Conferências e como esse exemplo aparece hoje nas visitas aos Pobres

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Escrito por Ricaella Inocente

01 NOV 2026 - 09H00

Em 1º de novembro, a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos e recorda a multidão de homens e mulheres que viveram o Evangelho até o fim, muitos deles longe dos holofotes, na rotina da casa, do estudo e do trabalho. É nesse lugar, o da vida comum, que três jovens vicentinos dizem ter encontrado o próprio caminho de santidade. E os três chegaram até ele pelas mãos da mesma intercessora: a Beata Isabel Cristina Mrad Campos.

Andreia Ribeiro Pereira, de Juiz de Fora/MG, e Vitor Hugo de Souza Vilete e Letícia Guilherme Real, de Divino/MG, ao falarem sobre o santo ou beato vicentino que mais os inspira, os três responderam com o mesmo nome. E descreveram, cada um à sua maneira, a mesma descoberta: a santidade não está reservada a pessoas extraordinárias.

Uma jovem vicentina nos altares

Isabel Cristina nasceu em Barbacena/MG, em 29 de julho de 1962. Desde cedo participou da vida da Igreja e integrou as Conferências vicentinas. Na apresentação de sua causa, a Arquidiocese de Mariana destacou que a jovem viveu a espiritualidade vicentina e que essa espiritualidade inspirou sua caminhada de fé e de atenção aos mais pobres.

Em 1982, aos 20 anos, Isabel Cristina foi morta em Juiz de Fora, onde estudava, ao resistir a uma tentativa de violência sexual. Em 27 de outubro de 2020, o Papa Francisco reconheceu seu martírio, e a beatificação foi celebrada em 10 de dezembro de 2022, em Barbacena, com a presença de cerca de 10 mil pessoas. Sua memória litúrgica é celebrada em 1º de setembro.

“Ela me chamou primeiro”

Andreia cresceu em Taubaté/SP, numa família católica, mas pouco praticante. Recebeu os sacramentos no tempo certo, porém raramente ia à missa. Uma lembrança resume aquele tempo: voltando da aula de ônibus, passou em frente à sua paróquia, a Paróquia São João Paulo II, e viu o grupo de jovens reunido.

“Naquele momento, meu desejo era estar vivendo aquilo com eles, estar lá reunida em oração, e eu não estava. Não estava, porque, naquela época, Deus sempre ficava em segundo plano. Eu me dedicava excessivamente aos meus estudos e me esquecia do mais importante: Deus. Uma vida muito semelhante à de Marta no Evangelho”, conta.

Tudo mudou aos 17 anos, quando se mudou para Juiz de Fora, em abril de 2023, “contra minha vontade no início e com muitos medos”. Alguns meses antes, já sentia um incômodo: conhecia muito pouco a própria fé. Começou a pesquisar e a ouvir pregações, e a primeira descoberta a impressionou. “Um católico deve frequentar a Santa Missa todos os domingos. Isso me causou um grande incômodo e resolvi procurar uma igreja.”

Uma amiga recém-conhecida, Giovanna, indicou a paróquia perto da universidade, a Paróquia Nossa Senhora de Fátima, hoje Paróquia Universitária. “A partir de então, tudo começou a mudar. A minha conversão, aos poucos, começou a acontecer.” Ela destaca o papel do pároco, padre Robert, a quem considera “um pai espiritual e de coração pelo tanto que ele me ensinou sobre Deus”.

Foi na missa celebrada na universidade às quintas-feiras que ouviu falar de Isabel Cristina pela primeira vez. Nas preces, pedia-se sempre a intercessão da beata pelos universitários. “Passei muitas quintas-feiras ouvindo o nome dela, mas confesso que nunca dei muita atenção.” Hoje, é Andreia quem lê as preces e pronuncia o nome da beata em todas as missas.

O encontro de verdade aconteceu em 23 de agosto de 2024. Com mais de um ano de faculdade, ela ainda tinha dificuldade de se adaptar à rotina, enfrentava uma disciplina difícil e uma professora muito rigorosa. No desespero, lembrou-se de Isabel Cristina e decidiu fazer uma novena. Ao procurar uma na internet, descobriu que a novena da beata começava exatamente naquele dia.

“A partir dali eu tive uma certeza: não fui eu que chamei ela, ela me chamou primeiro. Fiz a novena, conheci com detalhes a história dela e, a partir dali, ela se tornou a minha amiga do Céu. A disciplina eu fui aprovada, mas isso se tornou o menos importante, perto do presente, que foi o exemplo e a intercessão dela por mim.”

Uma estudante como ela

O que mais encantou Andreia na história da beata não foi apenas o testemunho final, mas a vida comum vivida em santidade. “Ela esteve no mundo, mas provou não pertencer a ele e, sim, pertencer ao Céu. Ela também foi uma estudante como eu, também saiu de casa muito jovem como eu, também andou pelas ruas de Juiz de Fora como eu. Mas, desde pequena, cultivou uma intimidade singular com Deus por meio da oração e, sobretudo, das obras de caridade. E isso mudou tudo. Podemos dizer que ela se santificou também dentro da família vicentina.”

Andreia ouvia falar dos vicentinos desde pequena e os encontrou também na paróquia, mas entrar na Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) não estava nos planos. Isabel Cristina mudou isso. “Se ela doou o tempo dela para essa obra, eu também poderia me sacrificar um pouco e doar o meu tempo.” A entrada na SSVP também foi uma promessa feita à beata, caso superasse aquele momento difícil na faculdade, “que foi muito além de uma nota”.

Hoje, vicentina da Conferência São José Operário e membro da Comissão de Jovens (CJ) do Conselho Particular (CP) Vila São Vicente de Paulo, ela não hesita: “Ser da família vicentina foi uma das melhores coisas que já aconteceram na minha vida. Existe um antes e um depois da Andreia com a Sociedade de São Vicente de Paulo.”

De Divino a Barbacena

A cerca de 300 quilômetros dali, segundo ele próprio calcula, em Divino, na Zona da Mata mineira, Vitor Hugo conheceu a história de Isabel Cristina em 2022, ano em que ingressou na SSVP. Sabia pouco sobre ela até ver uma publicação no Instagram. “Nasceu em mim um grande desejo de conhecer quem era aquela jovem que estava sendo beatificada e que, principalmente, também era vicentina.”

O desejo foi tão grande que ele decidiu ir à beatificação, em Barbacena. Sem condições financeiras para a viagem, contou aos padrinhos a história da jovem e o quanto queria estar lá. Sensibilizados, eles também se interessaram pela vida dela e o levaram de carro para participar da cerimônia e da missa em Ação de Graças.

“Foi uma experiência extraordinária! Pude conhecer mais profundamente a vida de Isabel Cristina, seu amor a Deus, sua firmeza na fé e sua fidelidade a Cristo, até derramar o próprio sangue. Também ouvi relatos de pessoas que a conheceram e conviveram com ela. Para mim, foi como viver um pedacinho do céu aqui na Terra.”

A viagem mudou também a forma como Vitor via a própria Sociedade. “Naquela época, eu pensava que a Sociedade de São Vicente de Paulo era um lugar principalmente para pessoas idosas. Mas, ao conhecer melhor sua história e a de tantos outros santos que se dedicaram a Deus por meio da SSVP, percebi que a SSVP também é uma verdadeira fábrica de santos. Isabel Cristina é um exemplo de que os jovens também podem encontrar na Sociedade um caminho de santidade e de entrega a Deus por meio do serviço aos Pobres.”

Uma Conferência com o nome da beata

O testemunho virou obra. Inspirados pela história da jovem, Vitor e outros vicentinos criaram a Conferência Beata Isabel Cristina, vinculada ao CP de Divino Espírito Santo e ao Conselho Metropolitano (CM) de Caratinga, na Região 2. A ideia, diz ele, é levar a história dela a mais pessoas e seguir seu exemplo nas visitas aos assistidos, nas comunidades rurais e urbanas, nos terços rezados nas casas e nos diversos movimentos da Igreja.

Todos os anos, em 1º de setembro, a Conferência celebra a memória da beata na sede da SSVP em Divino. O grupo também promove a Festa do Céu, que neste ano chega à quarta edição, para divulgar ainda mais a vida de Isabel Cristina.

Uma amizade que passa adiante

Foi pela voz de Vitor que a história chegou a Letícia Guilherme Real, hoje secretária da Conferência Beata Isabel Cristina e coordenadora auxiliar da CJ. “Conheci a história da Beata Isabel Cristina por meio de um grande amigo meu, Vitor Hugo, que esteve presente em sua beatificação e trouxe consigo o testemunho de sua vida”, conta. “Por meio dele, conheci a história de uma menina simples e humilde, cujo testemunho continua vencendo barreiras e tocando tantos corações até hoje.”

O que a toca, diz Letícia, é perceber que a santidade pode ser vivida “de maneira tranquila, simples e cotidiana”. “É justamente essa santidade que nós tanto pedimos: uma santidade em que ajudar o próximo seja algo natural, assim como também precisamos reconhecer que necessitamos da ajuda dos outros. A caridade não precisa ser algo extraordinário, mas pode estar presente nas pequenas atitudes de cada dia, na maneira como tratamos as pessoas, na disponibilidade para ajudar e no amor que colocamos em nossas ações.”

A santidade que se aprende na visita

Para os três, é nas visitas que o exemplo da beata ganha forma concreta. Vitor diz que Isabel Cristina o inspira sobretudo na maneira de escutar. “Ela soube acolher os idosos e os mais necessitados, e procuro seguir esse mesmo exemplo, dando atenção a cada irmão e procurando enxergar Cristo em cada um deles.” O que mais o marca na vida da beata, conta, é que ela buscou a santidade “nas coisas ordinárias do dia a dia”: o amor pela Igreja e pelos Pobres, as visitas aos assistidos e aos asilos, a devoção ao Santíssimo Sacramento.

Letícia fala em ir além da ajuda material. “Não quero enxergar a caridade apenas como o ato de entregar uma cesta básica. Quero aprender a cuidar verdadeiramente das pessoas, para que elas não se sintam definidas pela pobreza, mas reconheçam em nossas atitudes o amor de Deus. Precisamos oferecer presença, escuta, respeito e dignidade. Quando nos aproximamos deles com verdadeiro amor, não estamos apenas servindo: estamos também encontrando Cristo.”

Andreia guarda uma cena de um documentário sobre Isabel Cristina, em que a diretora da escola onde ela estudou fala do amor e do zelo com que a jovem tratava quem precisava de ajuda. “Sempre tento me recordar disso quando participo das visitas”, diz. “As visitas são a parte mais linda do nosso trabalho. É quase sempre uma surpresa a forma como vamos encontrar aquela família. Muitas vezes são pessoas que não precisam do alimento, ou apenas dele, mas precisam sobretudo de amor, atenção e cuidado. E sempre encontraremos nela o Cristo, como na passagem de Mateus 25,35: ‘Tive fome e me deste de comer’.”

Fé também nas redes

Andreia leva esse testemunho para as redes sociais, que hoje considera um instrumento de evangelização. A intenção, explica, é mostrar que muitos jovens desejam viver a santidade, apesar das dificuldades. “Graças a Deus, já recebi inúmeras mensagens. Sempre tento mostrar também que as minhas quedas e dificuldades são muitas. O que de fato acontece é um cair e se levantar constante, mas que sempre é amparado pela graça de Deus.”

Na paróquia, a devoção virou até brincadeira carinhosa. Ao perceber o quanto ela falava da beata, padre Robert passou a dizer que as duas se parecem, e que só falta a franja. “Já perdi as contas de quantas vezes ele falou isso para mim e confirmou com as outras pessoas também, até com o nosso arcebispo”, diverte-se Andreia. “Fico muito feliz com a comparação, embora só me pareça com a beata na aparência mesmo. Quem me dera ser 1% da pessoa que ela foi.”

“Tenham coragem de ser santos”

Convidados a deixar uma mensagem a outros jovens, os três falaram de perseverança. Vitor lembrou que a beata também viveu a santidade dentro da própria família, no amor e no cuidado com os pais. “Hoje, nós, jovens, enfrentamos muitas dificuldades e, às vezes, pensamos que, para ser santos, precisamos ser perfeitos. Mas não é assim! Isabel Cristina também teve suas fragilidades, mas compreendeu que a santidade não acontece como um passe de mágica. Ela é buscada dia após dia, por meio dos sacramentos, das visitas aos Pobres e de tantas outras coisas simples que nos aproximam de Deus.”

E completou: “Tenham coragem de ser santos! Tenham coragem de se arriscar pelo Evangelho, de se arriscar por amor a Deus e de se entregar totalmente a Ele. Que o exemplo de Isabel Cristina nos inspire a permanecer firmes na fé, pois ela nos ensina que vale a pena resistir ao mal, custe o que custar!”

Letícia pediu que ninguém desista nos dias difíceis. “Não precisamos ser fortes o tempo todo, mas precisamos nos lembrar de que nunca caminhamos sozinhos. Talvez hoje consigamos fazer pouco, talvez amanhã consigamos fazer um pouco mais, mas que nunca nos falte o desejo de amar a Deus e ao próximo. É nesse pouco, vivido todos os dias com amor e fidelidade, que vamos construindo nossa santidade.”

Andreia adaptou uma frase que carrega consigo: “É loucura jogar fora todas as chances de ser santo porque uma tentativa não deu certo”. E repetiu o conselho que ouve do padre Robert: a vida de oração se faz na constância e na vigilância, e não existe santidade sem oração. “Se tudo der errado, como quase sempre costuma acontecer comigo, vamos nos levantar e tentar de novo. Tem um Céu inteiro do nosso lado e Ele é dos perseverantes!”

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