Eram cinco da manhã no Brasil quando um grupo de jovens acordou de colchões espalhados pelo chão do Recanto da Amizade, no Rio de Janeiro, para assistir juntos à transmissão da Praça de São Pedro. Estavam reunidos ali para a reunião ordinária a Coordenação da Comissão Jovens (CJ) da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) e decidiram esticar o encontro por mais um dia. Na tela, o Papa Leão XIV declarava santo Pier Giorgio Frassati, um estudante italiano que, aos 17 anos, tinha entrado para uma Conferência vicentina e passado a visitar famílias Pobres em Turim.
"Vibramos, rezamos e nos emocionamos juntos. Foi um momento que ficará marcado para sempre na minha memória", conta Ana Cláudia Prado, Coordenadora Nacional da CJ da SSVP Brasil. "Na noite anterior, já vivíamos um clima de fraternidade, amizade e alegria, e literalmente dormimos todos juntos, com colchões espalhados pelo chão. Foi justamente dessa convivência simples e cheia de amizade que acordamos para testemunhar esse momento tão especial."
Neste 7 de setembro, a canonização completa um ano.
Pier Giorgio Frassati nasceu em Turim, no norte da Itália, em 6 de abril de 1901, numa família da alta burguesia, o pai era dono de um jornal influente e chegou a ser embaixador. Estudou em escola pública e, em 1918, entrou no Politécnico de Turim para cursar Engenharia Mecânica, com especialização em engenharia de minas: queria trabalhar entre os mineiros.
Foi mais ou menos nessa época, aos 17 anos, que ingressou numa Conferência da Sociedade de São Vicente de Paulo. A partir dali, boa parte do seu tempo livre e do seu próprio dinheiro passou a ser destinada às famílias Pobres da cidade. Não era um gesto ocasional: ele visitava, acompanhava, sustentava financeiramente famílias concretas e voltava. Os amigos, que o viam circular pelas ruas de Turim carregando carrinhos cheios de ajuda, o apelidaram de "Empresa de Transportes Frassati", episódio lembrado pelo próprio Papa Leão XIV na homilia da canonização.
Ao mesmo tempo, Frassati era tudo aquilo que se espera de um jovem de 24 anos. Alpinista, subia montanhas com os amigos e transformava as excursões em encontros de oração e brincadeira. Fundou com eles a "Società dei Tipi Loschi" — algo como "Sociedade dos Tipos Suspeitos" —, um grupo de amizade e diversão. Militou politicamente: entrou para o Partido Popular aos 19 anos, participou da Federação Universitária Católica Italiana e enfrentou dificuldades no período de ascensão do fascismo. Em 1922, recebeu o hábito da Ordem Terceira Dominicana, adotando o nome de Frei Girolamo.
No fim de junho de 1925, adoeceu. Era poliomielite fulminante, acredita-se que tenha sido contraída nas visitas às regiões mais Pobres de Turim. Em poucos dias, o quadro se agravou. Em 4 de julho de 1925, aos 24 anos, ele morreu. A cidade descobriu no funeral o tamanho da caridade que ele fazia em silêncio: a família, que não conhecia a extensão daquele trabalho, viu chegar uma multidão de Pobres para se despedir dele.
Frassati foi beatificado em 20 de maio de 1990, na Praça de São Pedro, pelo Papa João Paulo II, que o apresentou ao mundo como "o homem das oito bem-aventuranças". O caminho até a canonização se completou com o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão: a cura, em 2017, nos Estados Unidos, do seminarista mexicano Juan Manuel Gutiérrez, que sofria de uma grave lesão no tendão de Aquiles.
A cerimônia estava prevista para o Jubileu dos Jovens, em agosto de 2025, e foi remarcada para 7 de setembro daquele ano, quando Frassati foi canonizado ao lado de Carlo Acutis, na primeira canonização do pontificado de Leão XIV. Na homilia, o Papa afirmou que "a vida de Pier Giorgio representa uma luz para a espiritualidade leiga" e citou uma frase do próprio santo: "Em torno dos Pobres e dos doentes, vejo uma luz que nós não temos."
Para a SSVP, a data teve um significado próprio. "Sabemos que a Família Vicentina possui muitos santos e beatos, mas poder testemunhar a canonização de um jovem que viveu o mesmo carisma que eu procuro viver hoje é algo realmente inexplicável", diz Ana Cláudia. "Foi também um momento de renovação da esperança de que a santidade é possível."
Frassati é patrono da Juventude Vicentina, e foi por esse caminho que Ana Cláudia o conheceu. "Aquilo despertou minha curiosidade para conhecer melhor sua história e, quanto mais eu aprendia sobre sua vida, mais me encantava com seu testemunho", lembra.
Para ela, o dado que mais importa divulgar é justamente o vínculo com a Sociedade e a coordenadora faz questão de reforçá-lo por onde passa. "Frassati foi um vicentino, membro como qualquer um de nós: participava das Conferências, fazia visitas às famílias assistidas e vivia intensamente o serviço aos Pobres", afirma. "Acho muito importante divulgar esse aspecto da sua vida, porque mostra que ele viveu, na essência, o mesmo caminho que nós percorremos hoje dentro da SSVP. Um detalhe que sempre faço questão de lembrar é que, nos últimos momentos de sua vida, ele ainda estava preocupado com as famílias que assistia."
As Conferências são os grupos de base da SSVP, que se reúnem periodicamente para rezar e organizar as visitas domiciliares às famílias acompanhadas, as chamadas famílias assistidas. É o mesmo formato que existia em Turim, nos anos 1920, e que existe hoje em milhares de comunidades brasileiras.
Um ano depois, Ana Cláudia enxerga efeitos concretos entre os jovens da Sociedade, menos no plano da emoção e mais no da responsabilidade assumida.
"Percebo que os jovens estão cada vez mais dispostos a assumir responsabilidades dentro da SSVP, e isso é muito bonito de ver", afirma. "Hoje, na diretoria do Conselho Nacional do Brasil, temos jovens atuando em praticamente todos os departamentos, muitos deles nas Coordenações. Em alguns Conselhos Metropolitanos também vemos jovens colocando seus nomes à disposição para assumir a Presidência."
Para ela, o movimento diz respeito a compromisso, não a cargos. "Mais do que ocupar cargos, isso demonstra compromisso com a SSVP e o desejo sincero de contribuir para que ela continue crescendo. Vemos o protagonismo juvenil acontecendo."
Cem anos separam a morte de Frassati da juventude vicentina de hoje. A coordenadora resume em uma palavra o que atravessa esse século: autenticidade.
"Frassati mostrou que é possível viver plenamente a juventude sem abrir mão da fé. Ele gostava de estar com os amigos, fazia esportes, se divertia, fazia brincadeiras e, ao mesmo tempo, tinha uma profunda vida de oração e um compromisso concreto com os Pobres", diz. "Isso faz com que muitos jovens percebam que a santidade não está distante da realidade deles, mas pode ser vivida no cotidiano."
O que ela tenta trazer para a própria vida vai na mesma direção. "A alegria com que ele vivia a fé e o cuidado sincero com as pessoas são características que me inspiram. Frassati transmitia alegria por onde passava e mostrava que seguir Jesus não significa viver uma vida triste ou distante das pessoas, mas, ao contrário, é viver com entusiasmo e amizade. Ele nunca separou a oração da caridade, fazia das duas um único caminho. Procuro aprender com esse testemunho."
E se o interlocutor for um jovem que nunca ouviu falar dele, a apresentação não começa pela santidade.
"A primeira coisa que eu contaria é que Frassati era um jovem muito alegre. Gostava de brincar, fazia muitas piadas, amava estar com os amigos e viver uma 'bagunça santa'. Acho importante mostrar que ele era um jovem como qualquer outro, com sonhos, amizades e uma vida ativa", explica Ana Cláudia. "Depois disso, explicaria que justamente nessa vida comum ele escolheu viver sua fé com profundidade e compromisso. Para mim, esse é o maior ensinamento de Frassati: a santidade é acessível. Muitas vezes pensamos que precisamos ser perfeitos para chegar ao céu, mas ele nos mostra que basta viver o Evangelho com fidelidade nas pequenas atitudes de cada dia, colocando Deus no centro da nossa vida e vivendo nossa vocação."
Foi essa também a última recomendação registrada do santo, citada pelo Papa Leão XIV na canonização: "Se tiveres Deus no centro de todas as tuas ações, então chegarás até ao fim."
Do podcast ao YouTube: como jovens vicentinos usam o digital a serviço da missão
Em encerramento da série sobre juventude vicentina, dois vicentinos mostram como o carisma de Frassati encontrou nova voz nas plataformas digitais
Juventude Vicentina Influencer: quando o testemunho também acontece nas redes sociais
Para muitos jovens, a internet é espaço de entretenimento e informação. Para a vicentina Daniela, ela também se tornou uma oportunidade de compartilhar a vocação, inspirar novas pessoas e mostrar que a caridade continua transformando vidas
4ª Romaria das Juventudes Vicentinas reunirá jovens no Santuário do Caraça em setembro de 2026
Evento promoverá espiritualidade, convivência, oficinas e experiências de caridade entre jovens vicentinos e membros da Família Vicentina de várias regiões do país
Boleto
Reportar erro!
Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:
Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.