Durante três dias, Salvador/BA recebeu quem coordena a dimensão missionária da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) em todo o país. De 16 a 18 de outubro, a Casa São José sediou o VI Encontro Nacional do Departamento Missionário do Conselho Nacional do Brasil (CNB), com 77 participantes, entre presidentes e coordenadores dos Departamentos Missionários dos Conselhos Metropolitanos de todas as regiões do Brasil.
Com o tema “Ir, Encontrar e Transformar” e o lema “Ide e convidai a todos para o banquete” (Mt 22,9), a programação uniu espiritualidade, formação, atividades práticas e partilha de experiências. A proposta, segundo o coordenador nacional do Departamento Missionário, Thiago José de Lima Alvim, era aproximar a reflexão missionária da realidade cotidiana da SSVP.
“Mais do que transmitir conhecimentos, buscamos capacitar e animar os coordenadores para que sejam capazes de mobilizar pessoas, articular talentos e desenvolver ações missionárias possíveis, criativas e adequadas à realidade de suas regiões”, afirma Thiago.
O Encontro foi o ponto alto de um outubro dedicado à missão. No dia 7, memória de Nossa Senhora do Rosário, o CNB e o Departamento Missionário lançaram o Desafio Missionário Nacional “Ir. Encontrar. Transformar.”, que convida cada Conferência a levar ao menos uma pessoa da comunidade que ainda não é vicentina para participar de uma reunião e acompanhar uma visita a uma família assistida.
A ideia era que a missão acontecesse em duas frentes ao mesmo tempo: enquanto os coordenadores estavam reunidos em Salvador, as Conferências colocavam a proposta em prática em suas comunidades.
O último dia do Encontro, 18 de outubro, coincidiu com o 100º Dia Mundial das Missões, celebrado pela Igreja com o tema “Um em Cristo, unidos na missão”. Na mesma data, foram apresentados os frutos do Curso de Capacitação Missionária Padre Joelson Sotem, cuja 6ª turma concluiu a formação em setembro, com cerca de 60 participantes que levaram para a própria realidade os projetos desenvolvidos no estágio.
Entre os momentos mais marcantes esteve a palestra principal, conduzida pelo Padre Antonio de Lisboa Lustosa Lopes, que aprofundou o sentido do tema e apresentou os três movimentos da missão vicentina.
Ir é colocar a vida à disposição dos caminhos reais da missão. Encontrar é reconhecer Cristo na dignidade inteira de cada pessoa, por meio de uma escuta atenta e acolhedora. Transformar é permitir que essa experiência produza frutos duradouros, tanto na vida de quem recebe a visita quanto na própria SSVP.
Para Thiago, um ponto da formação provocou especialmente os participantes. “A missão não termina na visita. Ela precisa gerar aprendizado, mudanças de atitude e consequências institucionais, mantendo viva a capacidade da SSVP de acolher, renovar-se e responder às realidades que encontra”, resume.
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A programação também desafiou os participantes a transformar o que ouviram em iniciativas concretas. As oficinas temáticas trataram de três dimensões do trabalho missionário: a Visita Missionária, conduzida pelo confrade Isaías de Oliveira Júnior; o Recrutamento, pelo confrade David Faria Alves; e o Líder Missionário, pelo próprio Thiago.
Mais do que exposição de conteúdo, as oficinas estimularam a troca de experiências e a construção coletiva de ideias simples e replicáveis, que possam ser adaptadas às diferentes realidades dos Conselhos e das Conferências.
Outro destaque foram os Cases Missionários. Lideranças vicentinas de Salvador compartilharam desafios concretos vividos pelo Conselho Central local, e os participantes elaboraram propostas de planejamento missionário a partir dessa realidade, organizadas em três etapas: pré-missão, missão e pós-missão.
A atividade reforçou a importância de conhecer o território, compreender seus desafios, preparar as ações e acompanhar os resultados. “O coordenador não precisa saber fazer tudo, mas precisa saber mobilizar pessoas, reconhecer talentos e construir caminhos em equipe”, afirma o coordenador nacional.
Um dos temas centrais do Encontro foi superar a ideia de que a missão depende de muitos recursos, muitas pessoas ou estruturas complexas. Thiago reconhece que o Departamento Missionário lida com realidades muito diferentes pelo país, com limitações de recursos, equipes reduzidas e níveis distintos de experiência e organização.
“Precisamos desenvolver metodologias acessíveis, fortalecer a formação dos coordenadores e incentivar iniciativas simples, que possam ser adaptadas e reproduzidas em diferentes contextos”, explica.
Outro desafio, segundo ele, é fazer com que a dimensão missionária esteja presente de forma permanente na vida da SSVP, e não apenas em ações pontuais. “Precisamos fortalecer a compreensão de que a missão também passa por olhar para dentro da própria Sociedade, acolher novos membros, revitalizar as Conferências, animar os vicentinos e preparar lideranças capazes de mobilizar outras pessoas.”
Nenhum momento traduziu tão bem essa ideia quanto a presença do confrade Flávio Pereira Garcia, da Conferência São Benedito, de Teresina/PI. Em sua comunidade, Flávio desenvolve uma ação simples de divulgação da SSVP: monta uma mesa na porta da paróquia, com a bandeira e materiais vicentinos, e oferece água aos fiéis que chegam para as celebrações. É a oportunidade de apresentar a Sociedade e convidar novas pessoas a conhecê-la.
Em Salvador, ele levou esse gesto para dentro do Encontro. De avental e bandeja nas mãos, passou os três dias servindo os participantes, distribuindo doces e lembranças, sem que todos conhecessem a história por trás do serviço.
Ao final, Flávio declamou um poema de sua autoria, “A mesa está posta”, que convida à reflexão sobre as escolhas feitas ao longo da caminhada missionária. Foi então que os participantes compreenderam o sentido daquele serviço silencioso.
Para Thiago, a experiência deixou uma mensagem profunda. “Muitas vezes, a missão começa em uma mesa, em um copo de água oferecido com carinho, em um sorriso ou na disponibilidade de servir. Flávio demonstrou, na prática, que anunciar a SSVP também é acolher, aproximar pessoas e testemunhar o carisma vicentino por meio de pequenos gestos que fazem a diferença.”
Entre os participantes estava a consócia Tânia Teixeira Balbino, coordenadora do Departamento Missionário do Conselho Metropolitano de Barbacena e vicentina da Conferência São Sebastião, em Ibertioga/MG. Ela assumiu a função em agosto, mas o interesse pela missão começou antes, na plenária realizada em julho do ano passado, em Belo Horizonte.
“Eu era do Departamento de Comunicação e fiquei apaixonada pelo Departamento Missionário. Ali acendeu a chama”, conta. “Quando fui convidada a participar da diretoria do Conselho Metropolitano, pedi para ser do Departamento Missionário. Eu já tinha participado de uma missão e de uma pós-missão, então a chaminha já estava acesa.”
Em Salvador, o que mais a marcou foi conhecer a realidade de outros estados. “Foi muito bom conhecer pessoas de outras regiões, as dificuldades e os desafios que temos nas Conferências em todo o Brasil. As palestras foram motivadoras, porque a gente vê que não está sozinho. As mesmas deficiências que eu tenho, outras pessoas também têm em outras regiões do país.”
O exemplo do confrade Flávio ficou como uma das principais lições. “Às vezes a gente acha que tem que fazer grandes coisas para ser missionário. Na verdade, é preciso ter um coração bom e amor pelo que se faz. Quando a gente deixa o carisma incendiar, a gente vai. Foi mais que uma chama, foi um vulcão vindo de dentro.”
De volta à sua região, Tânia quer levar essa simplicidade para o Conselho Metropolitano e, a partir dele, para os Conselhos Centrais e Particulares. “Existem coisas simples que a gente pode fazer. Cada vicentino é um missionário. Não é preciso muito: basta ter o propósito de São Vicente de Paulo e de Frederico Ozanam, de ir ao encontro do pobre.”
A intenção do Departamento Missionário é que os frutos do Encontro sigam vivos nos Conselhos Metropolitanos. Entre os próximos passos estão a continuidade da capacitação missionária, o fortalecimento do uso do Guia de Missões e o incentivo para que cada coordenação transforme as reflexões de Salvador em iniciativas concretas de revitalização da SSVP.
“Mais do que elaborar planos distantes da realidade, queremos ajudar cada coordenador a identificar possibilidades, mobilizar sua equipe e dar os próximos passos com aquilo que já possui”, afirma Thiago.
Para o coordenador, organizar o Encontro foi uma experiência de grande responsabilidade e também de alegria. “Foram meses de preparação, oração e trabalho em equipe. Nosso desejo era que cada participante retornasse à sua região não apenas com novos conhecimentos, mas com o coração renovado e a certeza de que é possível fazer a missão acontecer, mesmo diante das dificuldades.”
E o convite segue aberto a todos os vicentinos. O Desafio Missionário Nacional continua nas Conferências: chame alguém da sua comunidade para conhecer a vida vicentina e compartilhe a experiência com a hashtag #IrEncontrarTransformar.
“O encontro termina, mas a missão continua”, conclui Thiago. “Afinal, o banquete está posto, e o convite continua sendo dirigido a todos!”
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