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“Missão começa quando decidimos ir”: no centenário do Dia Mundial das Missões, vicentinos colocam o aprendizado em ação

Do Curso de Capacitação Missionária Padre Joelson Sotem às ruas de Belém, aos bairros de Minas Gerais e às Conferências de Juiz de Fora, ações mostram a metodologia do Guia de Missões na prática, mesmo com poucos recursos

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Escrito por Ricaella Inocente

18 OUT 2026 - 09H00

No domingo, 18 de outubro, a Igreja celebra o centenário do Dia Mundial das Missões, com o tema “Um em Cristo, unidos na missão”. Para os vicentinos, a data chega em um momento especial. O VI Encontro Nacional do Departamento Missionário, em Salvador/BA, vive seu último dia com o tema “IR. ENCONTRAR. TRANSFORMAR.”, enquanto o Desafio Missionário Nacional mobiliza Conferências de todo o Brasil ao longo do mês de outubro.

A mensagem do Departamento Missionário do Conselho Nacional do Brasil (CNB) para a data é direta. “A missão não é tarefa de alguns, mas responsabilidade de todos nós”, afirma o coordenador nacional do Departamento Missionário, Thiago José de Lima Alvim. Segundo ele, se os vicentinos são um em Cristo, precisam estar unidos para ir ao encontro de quem ainda não conhece a Sociedade de São Vicente de Paulo, de quem se afastou e das próprias unidades que precisam ser revitalizadas.

Do curso à prática

Uma das formas de preparar vicentinos para esse envio é o Curso de Capacitação Missionária Padre Joelson Sotem. A edição de 2026, a 6ª turma, começou em 3 de junho, com encontros semanais às quartas-feiras, das 19h30 às 21h. Foram 10 encontros, e a formação terminou em 5 de setembro, com missa em Ação de Graças na Capela Menino Deus, no Rio de Janeiro/RJ, transmitida online.

A turma começou com cerca de 100 inscritos e chegou ao fim com aproximadamente 60 participantes efetivos, de diferentes partes do Brasil. O curso se baseia no Guia de Missões da SSVP e na metodologia dos IX Passos. Une espiritualidade, identidade vicentina, metodologia e prática.

A prática vem no estágio. Cada participante realizou uma ação missionária na própria realidade, acompanhado por orientadores, integrantes do Departamento Missionário do CNB e missionários experientes na metodologia. A ideia é viver o processo completo: perceber uma realidade, aproximar-se das pessoas, planejar, agir e refletir sobre o vivido. As experiências foram apresentadas à turma em 26 de agosto e 2 de setembro.

“A metodologia do Guia de Missões não engessa a missão; pelo contrário, ela oferece um caminho para que cada realidade encontre a melhor maneira de agir”, resume Thiago. Para ele, o maior fruto do curso foi ver “a teoria ganhar vida em diferentes lugares do Brasil”.

Ver, julgar e agir em Juiz de Fora

Em Juiz de Fora/MG, as vicentinas Suely Emidio de Castro, 2ª secretária da Conferência Nossa Senhora de Fátima e membro do Departamento Missionário do Conselho Metropolitano, e Maíza Campos da Paz, tesoureira da mesma Conferência e coordenadora do Departamento Missionário do Conselho Metropolitano (CM), aplicaram o método Ver, Julgar e Agir. Suely participa da SSVP há 40 anos, e Maíza, há 24.

Elas visitaram as Conferências do Conselho Particular (CP) Nossa Senhora de Fátima e reservaram os 15 a 20 minutos finais das reuniões para as etapas do projeto, combinadas antes com os presidentes. O trabalho durou cerca de três meses e envolveu 36 vicentinos. Com os visitantes, chegou a aproximadamente 108 pessoas. A ideia era observar a realidade das Conferências, refletir sobre ela e transformá-la à luz da fé e da Regra.

Segundo as vicentinas, o resultado apareceu em comentários positivos, em registro na ata do CP e no despertar de novos visitantes e aspirantes. “Se sentiram acolhidos, ouvidos e partes importantes na missão”, contam. O momento que resume a experiência veio na dinâmica das fitas, quando cada participante ouviu e falou sobre o valor de cada um na Conferência. A frase que ficou foi: “Quem és deixas marcas!”

A experiência também mudou o olhar das duas. “Passamos a valorizar o dar a vez e voz a cada um”, afirmam. Para elas, “missão não se explica, a gente vive”, e não existe missionário sem uma vida de Conferência bem feita. As duas já se organizam para a pós-missão, prevista para janeiro ou fevereiro de 2027.

Escuta e juventude em Icoaraci

Em Belém/PA, Wendy dos Santos Gonçalves, secretária da Conferência Nossa Senhora do Livramento e orientadora da Conferência de Crianças e Adolescentes (CCA) Menino Deus, e Ivelize Mamede Damas, presidente da mesma Conferência, escolheram atuar com pessoas em situação de rua, no Distrito de Icoaraci. A área do CP tem muitas pessoas em situação de vulnerabilidade, e a missão também buscava reaproximar vicentinos afastados, especialmente jovens.

As ações aconteceram em 7 e 17 de julho e em 15 de agosto. Os recursos vieram de brechós realizados pelos jovens e de doações das Conferências do CP de Icoaraci. Foram distribuídas 50 marmitas na primeira ação, mais de 80 kits de lanche na segunda e outras 50 marmitas na terceira. Nas três, o grupo saiu a pé da sede do CP até a orla de Icoaraci e voltou depois do atendimento.

Treze jovens participaram. Jovens em retorno à Conferência foram convidando e incentivando outros a viver o encontro com o próximo. No início, relata Wendy, houve receio de se aproximar, mas aos poucos eles se sentiram parte da missão. O olhar deles ajudou a organização. Gabriel Damas percebeu que também era preciso levar água potável, já que as pessoas atendidas não têm acesso a ela. Já, Luiz Silva lembrou a importância de ouvir quem é atendido. “A observação dos jovens foi extremamente precisa, pois muitas vezes passam despercebidas por nós”, conta Wendy. Sete dos jovens estão cada vez mais engajados nas atividades das Conferências.

Para Wendy, a missão deixou um aprendizado: “ter um olhar bem mais cuidadoso e saber ouvir mais”. As ações continuam, e o próximo passo é planejar iniciativas com outras Conferências e grupos de jovens da área paroquial.

Uma Conferência reativada em Minas Gerais

Em Minas Gerais, Ana Maria Cardoso Pereira Silva, presidente da Conferência Divino Espírito Santo e coordenadora do Departamento Missionário do CM de Montes Claros, já tinha vivido missões em outros lugares, como Barra do Choça/BA e Serro/MG. Com o curso, decidiu realizar uma missão na sua própria realidade, na área do Conselho Particular São Gonçalo, em Francisco Sá.

O planejamento contou com o pároco, padre Vanderlei Souza, e a missão reuniu presidentes de Conferências e dos Conselhos Particular, Central e Metropolitano. Um dos maiores desafios foi a hospedagem dos vicentinos vindos de Montes Claros. A solução veio da parceria com a Paróquia, que cedeu a casa da Pastoral da Criança.

O contato no bairro foi uma vicentina que mora ali há muito tempo. Ela passou uma lista de pessoas conhecidas que poderiam receber a missão, entre elas vicentinas que haviam participado antes de a Conferência parar. Assim foi reativada a Conferência São Paulo, no bairro Juquinha Dias, desativada desde 1995. Hoje, as reuniões reúnem entre 8 e 12 pessoas, e a Conferência também recebeu de volta confrades e vicentinas afastados, além de novos membros.

“Poder arrumar a nossa casa também foi muito gratificante”, diz Ana Maria, ao comparar a experiência com as missões que fez em outras cidades. Foi diferente de tudo o que ela havia vivido, pela união dos envolvidos e pelo apoio do pároco.

Um desafio para o mês inteiro

Os exemplos de Juiz de Fora, Belém e Francisco Sá convergem com o convite do Desafio Missionário Nacional “IR. ENCONTRAR. TRANSFORMAR.”, inspirado no lema “Ide e convidai a todos para o banquete” (Mt 22,9). A proposta é simples: cada Conferência leva alguém que ainda não é vicentino para conhecer a SSVP, participar de uma reunião e acompanhar uma visita a uma família assistida.

Quem participar pode marcar nas redes sociais a pessoa que deseja convidar e, depois da experiência, compartilhar fotos ou testemunhos com a hashtag #IrEncontrarTransformar. A Comunicação poderá repostar os registros ao longo do mês. “Salvador vive o Encontro. O Brasil vive a missão.”

Como começar

Thiago lembra que não é preciso esperar condições ideais. O primeiro passo é olhar para fora: quem são as pessoas que ainda não conhecem a SSVP, onde estão e quais são as necessidades da comunidade. Depois, é hora de reunir a Conferência, rezar, discernir e planejar com o Guia de Missões. Esse primeiro passo pode ser uma conversa, uma visita, um convite ou uma aproximação com a comunidade.

As vicentinas ouvidas na reportagem deixam conselhos parecidos. Wendy destaca a escuta e a observação das necessidades reais das pessoas. Suely e Maíza falam da oração ao Espírito Santo e do planejamento feito com zelo, com o envolvimento do Conselho Particular e da Conferência.

Quem quiser começar deve procurar primeiro o Departamento Missionário do seu Conselho Metropolitano e, quando necessário, o Departamento Missionário do CNB. A intenção é fortalecer uma rede em que as experiências sejam partilhadas, adaptadas e multiplicadas. Os missionários formados também passam a ser multiplicadores, e o certificado não encerra o curso.

“Missão não começa quando temos tudo pronto. Missão começa quando decidimos ir”, afirma Thiago.

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