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Isabel Cristina: a lembrança de quem viveu uma noite ao seu lado

Aos 12 anos, Dayse Hespanhol dividiu um quarto de hotel em Ouro Preto com a jovem que hoje a Igreja celebra como Beata. Uma memória simples que, décadas depois, se tornou testemunho de força e inspiração

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Escrito por Marina Prado

01 SET 2026 - 13H00

Faculdade Dom Luciano Mendes

A memória da Beata Isabel Cristina Mrad Campos é celebrada pela Igreja hoje, 1º de setembro. Conhecida carinhosamente como “flor vicentina”, ela deixou um testemunho marcado pela fé, pela coragem e por uma profunda ligação com a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), presente também em sua família por meio da atuação de seu pai, o Confrade José Mendes Campos.

Para a vicentina Dayse Hespanhol, de Governador Valadares/MG, porém, Isabel não é apenas a jovem que se tornou Beata e passou a ser lembrada por milhares de pessoas. É também a companheira de uma noite fria em Ouro Preto, quando, ainda muito jovem, teve a oportunidade de dividir um quarto de hotel com ela. Uma lembrança simples, guardada por décadas, que hoje ganha um significado ainda mais especial.

As famílias de Dayse e Isabel eram próximas. Seus pais, Hélio Pinheiro da Cunha e José Mendes eram amigos e conterrâneos de Barbacena/MG. Mesmo depois de a família de Dayse se mudar para Governador Valadares, as férias em Barbacena eram momentos em que os dois amigos se reencontravam. Mais tarde, o pai de Dayse assumiria a presidência do Conselho Central (CC) de Governador Valadares, enquanto o pai de Isabel estaria à frente do CC de Barbacena.

Foi nesse contexto que Dayse, então com 12 anos, viajou para Ouro Preto, acompanhada do pai, para participar de uma programação vicentina. Isabel também estava na cidade, acompanhada de seu pai. Já cursando Medicina, era alguns anos mais velha e, naquela viagem, as duas acabaram dividindo o mesmo quarto de hotel.

“Logo que adentrei o quarto, lá estava ela: Isabel Cristina me aguardando. Recebi as recomendações necessárias de um amoroso pai e segui junto dela”, recorda Dayse, hoje com 54 anos.

Era uma noite muito fria em Ouro Preto. Depois de trocar de roupa, as duas foram dormir. A conversa foi simples, como tantas entre duas jovens que se encontravam: Isabel quis saber como estavam os pais de Dayse, e as duas seguiram conversando sobre assuntos do cotidiano.

Para Dayse, porém, aquela experiência ficou marcada. Aos 12 anos, estava empolgada por estar em um hotel e, especialmente, por dividir o quarto pela primeira vez com uma pessoa que não fosse seus pais. Naquele momento, ela poderia imaginar o significado que aquela noite teria no futuro.

“Confesso que achei o máximo dormir sozinha com uma adulta e mal sabia eu que hoje ela estaria junto do bondoso Pai, de São Vicente de Paulo e do Beato Ozanam, cuidando de todos nós”, conta.

Décadas depois, a lembrança daquela noite se mistura à história de Isabel e ganha, para Dayse, uma dimensão ainda mais pessoal. Assim como Isabel, ela também passou por uma situação de abuso durante a adolescência. “Eu também passei por um abuso na adolescência e sobrevivi fisicamente e emocionalmente. E ter a Isabel passado por tudo isso, sofrido e lutado pela vida, me faz refletir muito”, revela.

É justamente por essa identificação que Dayse prefere olhar para Isabel não como alguém distante ou inalcançável, mas como uma jovem que enfrentou uma situação de violência e que, mesmo diante da dor, tornou-se um exemplo de força e coragem. “Não vejo a Isabel Cristina como um privilégio por tê-la conhecido, porque ela sofreu como muitas adolescentes, jovens, crianças e mulheres continuam a sofrer. Apenas sou grata por ela, apesar de toda a situação, estar inspirando e iluminando outras mulheres a lutarem por seus corpos e suas vidas”, explica Dayse.

Para ela, essa é uma das formas mais bonitas de homenagear Isabel: permitir que sua história continue sendo contada e que sua trajetória alcance outras mulheres. Mais do que lembrar o sofrimento, é preciso reconhecer a guerreira que existiu em Isabel e a força de seu testemunho.

Aquela menina de 12 anos que entrou em um quarto de hotel cheia de entusiasmo por dormir sem seus pais não sabia que, ao seu lado, estava uma jovem que seria lembrada pela Igreja como Beata e pelos vicentinos como a Flor Vicentina.

Hoje, ao olhar para aquela memória, Dayse guarda mais do que a lembrança de uma noite. Guarda a gratidão por ter conhecido Isabel Cristina e o desejo de fazer reverberar sua imagem como uma mulher guerreira, que lutou pela própria vida e cuja história continua inspirando e iluminando outras mulheres.

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Por Marina Prado, em Notícias

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