Agosto é o Mês das Vocações, um período em que a Igreja convida os fiéis a refletirem sobre os diferentes chamados de Deus e a importância de discernir, com atenção e abertura, o caminho que cada pessoa é convidada a seguir. A história do jovem Caio da Silva Ribeiro é um exemplo de como uma vocação pode começar ainda na infância, permanecer adormecida por alguns anos e ganhar força no serviço ao próximo.
Desde os 4 anos, Caio dizia à mãe que seria padre. A frase fazia parte da infância daquele menino do bairro Ceilândia, em Brasília/DF, que gostava de brincar, tinha boas notas na escola e levava uma vida tranquila. Com o passar dos anos, porém, o desejo acabou ficando de lado. Até que, já adolescente, voltou a ocupar espaço em seu coração. E foi na vivência da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) que essa antiga vontade ganhou novos sentidos.
Caio completa 20 anos no próximo dia 22 de agosto e, atualmente, é seminarista do 2º ano da Arquidiocese de Brasília. A caminhada até o seminário começou antes mesmo de ele ter certeza de que o sacerdócio era seu caminho. “Quando eu fui chamado para entrar na SSVP, eu já tinha uma inquietação. Eu já fazia direção espiritual com o meu pároco na Diocese de Brasília e já tinha um certo despertar, mas não sabia se era, de fato, sacerdócio”, conta.
A fé já fazia parte de sua vida desde criança. Foi a avó Luzia quem o levou para a Igreja e ajudou a formar sua espiritualidade. A aproximação com a SSVP aconteceu mais tarde, por meio de um Confrade de sua paróquia, que lhe apresentou o trabalho vicentino.
Caio começou a participar das atividades por volta de 2022 e foi aclamado em 23 de novembro do mesmo ano, na Conferência Santa Mônica. Antes da aclamação, porém, já havia se envolvido com o trabalho da Conferência e, posteriormente, recebeu o convite para participar do ACAMP’s, acampamento vicentino realizado em Brasília. A experiência o aproximou ainda mais da SSVP e, pouco tempo depois, ele também assumiu responsabilidades na Comissão de Jovens (CJ), chegando à coordenação do Conselho Central Santa Mônica Ceilândia/DF.
Foi no cotidiano dessas atividades que o discernimento vocacional começou a ganhar força. Caio já servia na Igreja como acólito e cerimoniário e passou a conciliar essa vivência com as visitas às famílias assistidas pela SSVP. “Às vezes, eu chegava em casa no domingo, depois de ter passado nas famílias assistidas,
depois de a gente ter entregado cestas e tudo mais, e eu falava: ‘Poxa, e se isso fosse a vida inteira?’”, lembra.
A pergunta não surgiu por acaso. Para ele, cada visita representava uma oportunidade de perceber a presença de Deus e compreender melhor o sentido da própria vocação. “Todas as vezes que eu ia a uma família assistida, Deus me tocava muito o coração e dizia que me chamava para algo a mais, que eu precisava me doar mais um pouco. E aí, esse chamado mais claro surge nesse contexto”, relata.
O despertar mais forte aconteceu quando Caio tinha 17 anos. A SSVP, segundo ele, teve grande influência nesse processo. O contato com as famílias, a experiência de servir e a convivência com outros vicentinos ajudaram a transformar uma inquietação em uma pergunta concreta sobre o futuro. “Eu sou uma pessoa muito jovem. Quando surgiu o despertar, eu estava com 17 anos. Então, a SSVP teve um toque muito grande nisso”, afirma.
O caminho escolhido foi o sacerdócio diocesano. Caio já estava discernindo junto à Arquidiocese de Brasília antes mesmo de entrar para a SSVP. Mas estar no seminário não significa, para ele, ter todas as respostas. Pelo contrário. Caio faz questão de destacar que está vivendo um período de discernimento.
“Eu estou no seminário, não quer dizer que eu vou ser padre. É um discernimento. São oito anos de estudo e, durante esse tempo, eu vou discernir se realmente é a vontade de Deus”, explica.
A família recebeu a decisão com alegria. Como Caio falava desde criança que queria ser padre, a entrada no seminário não foi uma grande surpresa. A mãe, inclusive, continua se emocionando ao acompanhá-lo. “Minha mãe fica muito feliz. Até hoje, quando ela vem me deixar no seminário, ela chora”, conta.
A avó Luzia, que o criou na fé católica, também comemora a caminhada. O pai de Caio, que faleceu neste ano, foi outro importante apoiador de sua vocação. Segundo ele, mesmo no hospital, nos últimos momentos de vida, o pai demonstrava orgulho ao falar sobre a possibilidade de ter um filho padre.
“Minha família acolheu muito bem. Graças a Deus”, resume.
A experiência também fez Caio compreender que vocação não é algo restrito ao sacerdócio ou à vida religiosa. Para ele, Deus chama cada pessoa de uma maneira diferente, e o mais importante é estar aberto para descobrir qual é esse caminho. “Deus tem, na sua infinita bondade, muitas vocações para dar para os seus filhos. E elas se manifestam de maneiras muito diferentes”, justifica.
Ele cita o matrimônio, o sacerdócio, a vida religiosa e também a dedicação à Igreja e à SSVP como diferentes formas de responder ao chamado de Deus. “Tudo isso é uma vocação. E eu acho que a gente deve corresponder e discernir.”
Aos jovens que sentem uma inquietação, mas têm medo de descobrir o que Deus pode estar lhes pedindo, Caio aconselha justamente a não fugir da pergunta. “Vale muito a pena a gente discernir e ver aquilo que é a vontade de Deus. Porque a vontade de Deus, no fim das contas, é a única que permanece. A gente deve dar prioridade às vontades dEle e não às nossas”, afirma.
O próprio Caio reconhece que também já imaginou uma vida diferente. “Eu gostaria muito de poder me casar, ter uma esposa, filhos, tudo mais. Mas Deus me chama, neste momento, a estar no seminário”, conta.
Ele ainda não sabe onde essa caminhada irá levá-lo. Mas espera continuar avançando e, se for essa a vontade de Deus, chegar à ordenação. “Não sei daqui a alguns anos, mas espero que possa ordenar também. Eu diria que vale muito a pena. Tem que seguir o que Deus tem para a gente”, ressalta
A história de Caio mostra que uma vocação pode começar muito cedo, permanecer como uma pequena semente durante anos e encontrar, no serviço ao próximo, o ambiente necessário para florescer. Para ele, foi entre as famílias assistidas, nas visitas e na experiência de se colocar a serviço do outro que uma antiga vontade ganhou uma nova pergunta: e se essa entrega fosse para a vida inteira?
Neste Mês das Vocações, a trajetória do jovem seminarista também deixa uma mensagem aos vicentinos: o servir pode transformar a vida de quem recebe a caridade, mas também pode revelar novos caminhos para quem se dispõe a fazê-lo.
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