A visita domiciliar é o coração da vida vicentina. É nela que a SSVP faz o que faz desde 1833: entrar na casa de uma família, sentar-se e ficar. Mas há uma pergunta que muita gente carrega sem dizer em voz alta: o que exatamente a Bíblia faz nesse encontro? Ela entra na conversa? Fica na bolsa? É lida, é rezada, é oferecida?
Neste mês de setembro, dedicado à Bíblia nas comunidades católicas de todo o país, a SSVP Brasil abre uma reflexão sobre a Palavra de Deus na vida vicentina. E começa pelo ponto mais concreto de todos: o método. Como preparar a visita, como escolher o texto e como rezar com a família assistida sem que nada disso vire imposição.
Para orientar essa reflexão, o padre Túlio Medeiros da Silva, da Congregação da Missão (CM), Assessor Espiritual do Conselho Metropolitano (CM) de Jundiaí, em Salto/SP. A resposta dele começa antes da porta da família, começa na porta de casa de quem visita.
Em 2026, o Mês da Bíblia propõe às comunidades a leitura do Livro do Profeta Daniel, com o lema "Seu reino jamais será destruído" (Dn 7,14), definido pela Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A preparação, segundo o padre Túlio, começa por um hábito simples e permanente. "Todo vicentino deve carregar sempre a Bíblia e a Regra", afirma. São, para ele, os dois livros essenciais na vida de quem integra a Sociedade e é com essas ferramentas em mãos que a visita semanal pode ser melhor preparada.
Preparar significa, na prática, escolher um texto bíblico e refletir sobre ele antes de sair. "Essa preparação pode ser realizada momentos antes de sair de casa para a visita", explica o assessor espiritual, que fundamenta a orientação na própria Regra da SSVP: "Os vicentinos rogam ao Espírito Santo que os guie durante as visitas e que faça deles instrumentos da paz e da alegria de Cristo" (Regra, p. 17).
A escolha do trecho bíblico não deve ser aleatória, mas servir "como luz para fortalecer a missão vicentina", diz o padre Túlio. E existe um critério simples, que dispensa longas buscas: usar a liturgia do dia.
A recomendação tem três vantagens práticas, segundo ele. A liturgia funciona como alimento diário, ajuda a manter constância na vida espiritual e evita que se faça uma "escolha ao acaso", mantendo quem visita próximo dos ensinamentos de Jesus Cristo.
Perguntado sobre a falha que mais vê, o padre é direto. "O erro mais comum talvez seja não se preparar antes de sair de casa, escolhendo previamente o texto que será lido, fazendo uma reflexão pessoal e buscando algum subsídio que auxilie na interpretação do texto escolhido."
E acrescenta uma advertência que vale como orientação para as Conferências: "Não podemos ter a ingenuidade de dizer que, na hora, o Espírito Santo escolherá o que será proclamado. Nós devemos nos preparar antes, para utilizar corretamente a Bíblia durante as visitas aos assistidos."
Definido o texto, resta a parte mais delicada: o momento da leitura dentro da casa. O padre Túlio propõe um caminho em três passos, que inverte a ordem que muita gente tenderia a seguir.
Primeiro, a leitura. Depois, o convite: os vicentinos "podem fazer a leitura e convidar os presentes a refletir sobre o que mais lhes chamou a atenção naquele texto". Por último — e só por último — a explicação. "Deixe para fazer uma explicação, não muito demorada, apenas ao final."
O ponto central está no que acontece entre a leitura e o comentário. "O importante é que todos tentem expressar o que o texto lhes inspirou", afirma. "Assim, será uma boa forma de rezar com a família."
A Regra da SSVP é explícita quanto a quem a Sociedade atende: "A Sociedade serve aqueles que estão em necessidade, qualquer que seja a sua religião, seu meio social ou étnico, seu estado de saúde, sexo e particularidades culturais ou opiniões políticas" (Regra, p. 17).
Por isso, o uso da Bíblia na visita tem limites claros. "No momento da visita, a Palavra de Deus não deve ser utilizada para impor, amedrontar ou fazer algum tipo de cobrança à família assistida", afirma o padre Túlio. "Deve ser um momento agradável, e não uma obrigação." A finalidade, explica, é renovar a esperança, tanto de quem é visitado quanto de quem visita. "Afinal, a Palavra de Deus deve congregar, e não dividir."
Quando a família não é católica ou não deseja rezar, a orientação é o diálogo honesto e sem constrangimento. "Devemos sempre manter um diálogo honesto e sincero com a família assistida. Eles devem saber que não fazemos acepção de pessoas, mas que somos um grupo católico", diz. "Não iremos impor nada, mas, se concordarem, poderemos utilizar a Bíblia como um instrumento de amor, e não de dominação. Ali, vamos partilhar a Boa-Nova do Reino, que é para todos."
Questionado sobre uma sugestão concreta para as Conferências neste mês, o padre Túlio indica o Cântico do Magnificat (Lc 1,46-55).
"Escolhi essa leitura porque acredito que ela expressa perfeitamente a oração de quem se propõe a visitar, a exemplo de Nossa Senhora, que também foi visitar sua prima Isabel", explica. "O texto manifesta o louvor de Maria e a exaltação dos humildes por Deus."
Há uma última dimensão, e talvez seja a que mais surpreende: o efeito da Palavra sobre quem a leva.
"Deus continua, através da sua Palavra, revelando-se a nós. Essa Palavra alimenta nossa fé e a nossa esperança", afirma o assessor espiritual. "Por isso, quem tem o contato pessoal e diário com a sua Palavra não se sente abandonado por Deus. Pelo contrário: adquire força e esperança para continuar a caminhada da vida, muitas vezes sofrida e machucada."
É o que a espiritualidade vicentina chama de mão dupla: evangelizar e deixar-se evangelizar pelos Pobres. A Bíblia levada para a visita não é um objeto que se entrega. É uma leitura que se faz junto, e que continua produzindo efeito depois que a porta se fecha.
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