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Do canteiro à mesa: as hortas que alimentam lares vicentinos em São Paulo e Minas Gerais

Em Suzano e Santa Isabel/SP e em Bambuí/MG, hortas mantidas com doações, parcerias e o trabalho de vicentinos abastecem lares e famílias atendidas pelas Conferências. Em uma delas, os próprios residentes plantam, regam e colhem

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Escrito por Ricaella Inocente

04 NOV 2026 - 09H00

Alface, couve, rúcula, agrião, beterraba, mandioca. Pés de manga, banana e abacate. Ervas para os chás e estufa para as folhas que não aguentam chuva. Em lares vicentinos de São Paulo e de Minas Gerais, o que nasce na terra vai direto para a mesa: das pessoas idosas que vivem nos lares, de quem trabalha neles e das famílias acompanhadas pelas Conferências.

Em Suzano e Santa Isabel, no estado de São Paulo, são três hortas ligadas ao Conselho Central (CC) de Suzano, na Região 4. A mais antiga, em Santa Isabel, existe desde 2015. A de Suzano começou em 2021, e a terceira, instalada dentro da Casa de São Vicente de Paulo de Suzano, surgiu em 2022. Juntas, elas ajudam a preparar cerca de 1.500 refeições por mês nos lares e nas casas das famílias atendidas. Em Bambuí, Minas Gerais, a horta da Vila Vicentina Padre Geraldo Rezende abastece a casa desde 2021.

“A ideia surgiu da necessidade de oferecer às famílias e aos idosos alimentos saudáveis e nutritivos, aproveitar os espaços e dar a satisfação de produzir os próprios alimentos”, conta Fabiano Falcone, presidente da Casa de São Vicente de Paulo de Suzano.

Horta e pomar da caridade

Os vicentinos de Suzano chamam os espaços de Santa Isabel e de Suzano de Horta e Pomar da Caridade. O nome explica a razão de existir. “Os alimentos são produzidos com o intuito de ajudar as famílias assistidas e os idosos dos lares”, resume Fabiano.

Em Santa Isabel, a horta ocupa um terreno particular cedido e é mantida inteiramente por doações, do terreno às mudas e ao caseiro que cultiva o espaço. São cerca de 2 mil mudas de legumes, verduras, temperos, chás e frutas. A colheita abastece os dois lares e também famílias atendidas na cidade de Arujá. “Toda semana o motorista do lar passa lá, pega os alimentos e leva para o lar de Suzano. E todo domingo eu colho e levo ao lar de Santa Isabel”, relata.

A horta de Santa Isabel ganhou recentemente uma criação de galinhas. As aves se alimentam dos vegetais plantados ali e devolvem ovos, que seguem para o lar e para as famílias, e esterco, que passou a adubar as duas hortas. “Eu comprava esterco para colocar na horta e passei a produzir para alimentar as duas”, explica Fabiano.

Já a horta de Suzano funciona em um imóvel cedido pela prefeitura. O terreno é menor e também reúne cerca de 2 mil mudas. Quem acompanha o dia a dia é o vicentino Waldyr, que mora em frente e está presente todos os dias, com o apoio de um jardineiro do lar que trabalha no espaço uma vez por semana. O Conselho Particular (CP) de Suzano, a Conferência Nossa Senhora das Dores e o próprio lar ajudam a manter a horta, e as mudas e o esterco chegam por doação. A colheita vai para a Casa de Suzano, sempre às quintas-feiras, e para famílias atendidas pelas dez Conferências do CP de Suzano.

A Casa de Suzano é a maior das duas e, por isso, recebe alimentos das duas hortas. “Em Suzano, hoje, são 23 idosos e 27 colaboradores, e todos se alimentam. A gente não compra essas mercadorias: somos nós que produzimos”, afirma o presidente.

O cuidado segue uma rotina. O plantio acontece nas épocas de melhor cultivo, de acordo com o calendário lunar. A rega é feita ao menos duas vezes por dia, e a colheita, diariamente, à medida que cada cultura fica pronta. As hortas são orgânicas: não recebem defensivos agrícolas nem agrotóxicos e são adubadas com compostos vegetais e esterco de galinha curtido.

A colheita também acompanha a visita às famílias. “Antes das visitas, passamos na horta, colhemos e levamos às famílias assistidas”, conta Fabiano. Para ele, a horta abre às famílias “a oportunidade de adquirir alimentos sem custo, visto que todos são doados”, e coloca na mesa verduras e legumes aos quais muitas delas não teriam acesso.


Hortaterapia: quando os residentes cuidam da horta

A horta de Suzano é também um espaço de cuidado para quem vive no lar. A cada 15 dias, residentes da Casa de São Vicente de Paulo de Suzano vão até lá para a hortaterapia, prática que usa o cultivo de plantas, temperos e o trabalho com a terra para promover a saúde física e mental. “Eles vão até lá e participam de tudo: plantam, colhem, tiram o mato”, descreve Fabiano.

Os encontros são acompanhados pela nutricionista Mariana de Oliveira de Carvalho, vicentina e coordenadora da Comissão de Jovens (CJ) da Região 4. Como o terreno é plano, pessoas em cadeira de rodas e com deficiência também participam. Na visita mais recente, estiveram na horta Miguel, Antônio Bispo, José Ferreira, Valderci, Antônio Carlos, Maria do Carmo, Cenira e Guilherme, entre eles Maria do Carmo e Antônio Bispo, que são pessoas com deficiência.

A ideia veio da experiência de Fabiano à frente do lar. “Aconteceu quando virei presidente da Casa. Sentia que seria muito bom para os idosos”, lembra.

Dentro da Casa, a terceira horta foi pensada para que todos pudessem cuidar dela. São caixas suspensas, instaladas na altura certa para quem usa cadeira de rodas, com cerca de 50 mudas de hortaliças e temperos. Ali, o cuidado é inteiramente dos residentes, que plantam, regam e colhem, e tudo o que se produz fica para o consumo do próprio lar. As caixas e as mudas foram doadas. “No lar, é muito útil como terapia ocupacional. Os alimentos orgânicos são muito saudáveis e nutritivos e geram qualidade de vida para os idosos”, diz Fabiano.

Em Bambuí, uma estufa para atravessar a época das chuvas

Em Minas Gerais, a horta da Vila Vicentina Padre Geraldo Rezende, em Bambuí, ligada ao Conselho Metropolitano (CM) de Formiga, começou em julho de 2021. A ideia partiu de Juca Bahia, que idealizou o projeto para contribuir com a instituição e cultivar hortaliças e frutas. Desde o início, a horta conta com o apoio do Sicoob Credibam, que custeia o colaborador responsável pelo cuidado e pela produção. Ele trabalha três vezes por semana e cuida de todo o processo, do plantio à rega e à colheita.

A variedade chama a atenção. Na horta crescem alface, couve, rúcula, agrião, espinafre, almeirão, acelga, brócolis, couve-flor, tomate, abóbora, abobrinha, berinjela, chuchu, pimentão, pepino, cenoura, beterraba, batata-doce e mandioca. O pomar tem abacate, banana, manga e outras frutas.

Para garantir as verduras de folha o ano inteiro, a Vila investiu em uma estrutura própria. “Em nossa horta contamos com uma estufa de 180 m² para cultivo de folhosas, cujo cultivo é bastante difícil na época das águas”, explica a presidente da Vila Vicentina, Gasparina Goretti Chaves.

Assim como em Santa Isabel, há também uma pequena criação de galinhas, que aproveita as sobras da horta e produz ovos.

As verduras abastecem a Vila, e o excedente é vendido à comunidade local. Segundo Gasparina, a horta trouxe três mudanças para a casa: economia, porque a Vila passou a se abastecer das próprias verduras, frutas e legumes; mais diversidade no cardápio; e mais qualidade na alimentação, com frutas e verduras frescas e naturais. “Temos muitas variedades”, resume.

Uma horta que se acompanha de longe

Em Suzano, a horta ultrapassa os muros. Toda semana, Fabiano registra o que está crescendo e envia as fotos a uma lista de transmissão do CC de Suzano. “Eles acompanham as safras, as produções. É um negócio muito legal”, conta.

Os espaços também recebem visitas de vicentinos de outros Conselhos Centrais e de grupos de estudantes. Em uma delas, alunos do 7º ano de um colégio de Arujá ouviram explicações sobre o cultivo orgânico, plantaram mudas de alface, colheram couve, arrancaram mandioca e voltaram para casa com sacolas de alimentos colhidos por eles mesmos.

O próximo encontro será o maior até agora. Na festa da Imaculada Conceição do CC de Suzano, cerca de 150 vicentinos vão tomar café na horta de Santa Isabel. “Muitos não conhecem. Vão ver a criação das galinhas, levar para suas casas verduras. Vai ser uma experiência interessante”, antecipa Fabiano.

Para quem quer começar

A quem pensa em plantar a própria horta, o presidente da Casa de Suzano deixa um convite:

“Comecem agora, em vasos, caixas suspensas, em canteiro, onde tiver um pequeno espaço com terra. Juntem os confrades e consócias, motivem os idosos dos lares a participar. Precisa de poucos recursos, o investimento em sementes é baixo. O que é preciso é dedicação e muito zelo, e isso todo vicentino já tem.”

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