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No Dia de Finados, uma reflexão sobre a dor que chega antes da perda

No dia em que a Igreja reza pelos que partiram, o psicólogo Orlando Inacio Gonçalves, da Rede de Afeto, reflete sobre a dor de quem acompanha uma perda anunciada e lembra que cuidar de quem cuida também é amor

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Escrito por Ricaella Inocente

02 NOV 2026 - 09H00

O dia 2 de novembro é marcado pelos Finados. É um dia de oração, de memória e de visita aos que partiram. Para muitas famílias, é também um dia em que a saudade se faz mais presente.

Na visita vicentina, essa dor costuma ser encontrada de perto. Ela está na casa de quem perdeu alguém, mas também ao lado de quem acompanha um familiar doente, de quem se despede de um trabalho, de uma relação ou de uma fase da vida. Acolher quem sofre, com escuta e sem pressa, faz parte do jeito vicentino de servir.

Desde junho de 2020, a Rede de Afeto oferece acolhimento emocional e acompanhamento psicológico gratuito, online, a pessoas que atravessam momentos de sofrimento. Neste Dia de Finados, o vicentino Orlando Inacio Gonçalves, psicólogo da Rede, compartilha uma reflexão sobre esse momento. O texto trata de uma dor pouco nomeada: o luto que começa antes da despedida.

LUTO ANTECIPADO: QUANDO A DOR CHEGA ANTES DA DESPEDIDA.

O luto não acontece apenas com a morte. Pode ser vivido em separações, perda de emprego, despedida de uma fase da vida ou no encerramento de qualquer ciclo.

Comumente associado ao período posterior à morte, o luto pode iniciar-se muito antes da perda concreta. É o chamado sofrimento por antecipação, vivido quando existe a consciência de que uma perda significativa é iminente, como em doenças crônicas, câncer avançado ou relações que, no imaginário, seriam eternas.

Diferente do luto pós-perda, o luto antecipado é vivido de forma silenciosa e, muitas vezes, sem validação social. Envolve a antecipação da morte, mas também a perda gradual de papéis, da rotina, da identidade da pessoa amada e do futuro imaginado juntos. Pode trazer tristeza, medo, impotência, culpa pelo cansaço, irritabilidade e até alívio, seguido de culpa. Essa ambivalência emocional é normal.

O indivíduo oscila entre o desejo de estar presente e a exaustão de um cuidado contínuo. Sua invisibilidade e a falta de permissão social para sofrer podem levar ao isolamento e ao esgotamento.

Encarar essa dor de forma saudável é fundamental para validar os sentimentos e compreender que sentir medo, cansaço e tristeza não significa falta de amor ou de fé. A dor existe porque o vínculo é significativo.

A psicologia propõe o exercício da presença: o que ainda é possível viver hoje? Uma conversa, uma música, um toque de mão, dizer obrigado e pedir perdão. Pequenos rituais podem transformar a despedida em presença.

É importante contar com uma rede de apoio. Compartilhar a vivência com familiares, amigos e grupos de apoio, além de buscar acompanhamento psicológico, são atitudes de cuidado consigo mesmo.

Cuidar de quem cuida é essencial. O luto antecipado nos ensina que amar implica aprender a lidar com a impermanência. Encarar essa dor não significa acostumar-se com a perda ou deixar de amar, mas encontrar equilíbrio entre cuidar do outro e cuidar de si com acolhimento.

Orlando Inacio Gonçalves

Psicólogo da Rede de Afeto

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