Segundo dados apresentados durante a capacitação, a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) mantém, no Brasil, mais de 500 Obras Unidas e emprega mais de 13 mil funcionários. Foi a partir dessa dimensão que a formação promovida pelo Departamento de Normatização e Orientação (Denor) do Conselho Nacional do Brasil (CNB), transmitida ao vivo na terça-feira (22) passada, propôs uma pergunta desconfortável logo no início: uma Obra Unida pode ser bem-intencionada e, ainda assim, ser mal administrada?
"Infelizmente, sim", respondeu o palestrante da noite, Willian Alves, Coordenador Nacional da Escola de Capacitação Antônio Frederico Ozanam (Ecafo) e, na vida profissional, gerente de compliance e auditoria. "Ela pode ser bem-intencionada, porque todas as nossas obras referem-se à caridade. Porém, ela pode ser mal administrada."
A live, realizada pelo Denor Nacional em parceria com a Ecafo, teve saudação inicial e orações conduzidas por Ivaldo de Moura Evangelista, Coordenador Nacional do Denor, e integra um conjunto de formações que o Departamento vem realizando ao longo do ano, entre elas, encontros regionais de Obras Unidas nas Regiões 6, 7 e 2, este último no fim de semana anterior à transmissão.
O ponto de partida da apresentação foi a distinção entre intenção e gestão. Segundo o Coordenador da Ecafo, uma organização que cuida de pessoas precisa ir além da boa vontade: exige método, competência, processos, controles, planejamento, indicadores e responsabilidades definidas.
"Boa intenção não substitui boa gestão", resumiu.
Ele foi explícito ao defender que a natureza caritativa da obra não reduz a exigência técnica. "Nós temos o carisma vicentino que nos abraça, porém temos que administrá-la como uma verdadeira empresa", afirmou, acrescentando que o retorno esperado não é financeiro: "Seria o cuidado adequado dos nossos idosos, dos nossos internos. Esse é o nosso principal lucro: a caridade organizada e a caridade bem praticada."
Administração amadora, explicou, não significa falta de dedicação. Significa administrar sem planejamento, sem processo definido, sem indicadores, sem controles, sem análise de riscos e sem clareza sobre papéis. É a gestão que apenas reage, "só apagando incêndio", nas palavras dele, em vez de prevenir.
Entre os principais obstáculos apontados está a frase que costuma encerrar qualquer discussão: "sempre foi assim". Dela derivam processos ultrapassados, desperdício, retrabalho e dependência excessiva de uma única pessoa.
"Se ele não estiver ali, a obra não funciona. Isso não pode existir", disse, lembrando que diretorias mudam a cada quatro anos e a rotina da obra precisa continuar. O mesmo vale para compras, nunca revistas, para contratações feitas por indicação pessoal e para práticas que nunca foram questionadas.
O bloco central da capacitação separou dois conceitos frequentemente confundidos. Governança é definir direção, prioridades, responsabilidades, limites de autoridade, políticas e controles, além de acompanhar e prestar contas, papel da SSVP, exercido pela diretoria da Obra Unida, pelo Conselho Central (CC) e pelos Denors dos Conselhos Metropolitanos (CM) e do CNB. Gestão é executar: planejar a operação, coordenar equipes, administrar recursos e acompanhar indicadores, papel dos profissionais contratados para isso, como gerentes, coordenadores, supervisores e responsáveis técnicos.
"A governança não deve substituir a gestão, e a gestão não deve substituir a governança", afirmou. É o dirigente vicentino, segundo ele, quem garante que o carisma não se perca dentro desse arranjo.
Para que os papéis fiquem claros, uma boa governança precisa responder a seis perguntas: quem decide, quem executa, quem acompanha, quem fiscaliza, quem presta contas e quem responde pelo resultado. A ferramenta sugerida é a matriz de responsabilidade — orçamento, contratações, compras, acolhimento de residentes, visitas, rotinas de cuidado —, com responsável, autoridade, prazo e controle definidos para cada atividade.
"Aquilo que é responsabilidade de todos frequentemente acaba não sendo responsabilidade de ninguém", observou.
O palestrante também reforçou que o acompanhamento das Obras Unidas não é atribuição exclusiva dos Denors: "A responsabilidade de acompanhar, de fiscalizar, de governança das Obras Unidas, junto com a diretoria da obra, é do Conselho Central."
A qualidade da assistência, defendeu, depende diretamente da qualidade da gestão de pessoas, ciclo que envolve contratação, integração, treinamento, avaliação de desempenho, liderança, comunicação, gestão de conflitos, reconhecimento, desenvolvimento e desligamento.
A avaliação de desempenho foi apresentada como rotina, não como fiscalização, e o feedback como prática contínua, não como evento anual. "Elogiar no coletivo e corrigir no individual", sintetizou. Sobre conflitos, o alerta foi direto: um conflito não tratado não desaparece, evolui.
Reuniões com as equipes contratadas também entram nesse escopo, com pauta, decisões, responsáveis, prazos, ata e registro de presença.
"As pessoas não podem ser o processo", afirmou. Todo processo precisa ser documentado, padronizado, treinado e constantemente atualizado, com distinção clara entre processo (o que precisa acontecer), procedimento (como executar) e política (os princípios e regras que orientam a decisão, incluindo legislação e normas da própria Sociedade).
Esse é justamente o trabalho em curso no Denor Nacional, que reúne uma equipe multidisciplinar, com atuação em gestão, medicina do trabalho, área jurídica e procedimentos, para escrever políticas e procedimentos padronizados. Entre os temas já em elaboração estão processos de gestão de pessoas, de compras e de acolhida de residentes. A implantação começará por um grupo reduzido de obras, em caráter de teste, e depois será expandida.
"Não pode ser que uma obra aqui faça de um jeito e a obra na outra cidade faça de outro", justificou.
A capacitação apresentou três camadas de conformidade que precisam ser harmônicas entre si: as normas internas da obra, as normas institucionais da SSVP e a legislação. "Cumprir a legislação não é burocracia, é dever", disse, lembrando que o desconhecimento de uma obrigação não elimina o risco do descumprimento.
Na gestão de riscos, a orientação é mapear probabilidade, impacto e nível de risco, definir controles, responsáveis e monitoramento. Entre os exemplos citados: queda de residente, erro de medicação, incêndio, acidente de trabalho, fraude, desvio financeiro, vazamento de dados pessoais, perda de documentos, falta de profissionais e falta de manutenção.
"Prevenir é mais barato que corrigir", afirmou. "Quem não planeja vive em crise permanente."
O encerramento propôs um autodiagnóstico às Obras Unidas, em cinco níveis de maturidade:
Todos antecipam riscos e melhoram continuamente as Obras. "Se hoje está no nível um, você já deu o primeiro passo: reconhecer que a sua obra precisa de uma melhoria."
Na etapa de perguntas do chat, foi confirmado que o material da capacitação será compartilhado com as Obras Unidas, com os coordenadores da Ecafo e com a equipe do Denor.
O Coordenador Nacional também antecipou um projeto da Ecafo Nacional previsto para o próximo ano: uma plataforma de cursos on-line voltada inicialmente aos funcionários das obras, com formação introdutória sobre a SSVP já no primeiro dia de trabalho, além de treinamentos como os de medicina do trabalho. Mais adiante, a plataforma deve ser aberta também aos vicentinos.
"Governança e gestão não é um projeto com começo e fim: é um ciclo permanente e necessário", concluiu.
A capacitação dialoga diretamente com o ano temático "Cuidar para servir". Como resumiu o palestrante ao encerrar: "Gerir bem é fazer com que a caridade continue, se perpetue."
A live "Capacitação do Denor|Boas Práticas e Governança nas Obras Unidas" está disponível no canal da SSVP Brasil no YouTube:
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