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Dia Internacional da Caridade: a escuta que acolhe e a escuta que trata

Celebrada em 5 de setembro, a data lembra que a caridade vicentina começou por um gesto simples: ouvir

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Escrito por Ricaella Inocente

04 SET 2026 - 15H00

Antes de existir uma cesta básica, um encaminhamento ou um projeto social, existiu uma conversa. Quando seis estudantes se reuniram em Paris, em 23 de abril de 1833, para fundar a primeira Conferência de Caridade, o que eles fizeram de mais radical não foi doar. Foi entrar na casa de uma família pobre, sentar-se e escutar. Amanhã, 5 de setembro, quando o mundo celebra o Dia Internacional da Caridade, essa discussão volta ao centro: a caridade vicentina nasce do ouvido antes de nascer da mão.

O Dia Internacional da Caridade foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em dezembro de 2012. A data escolhida, 5 de setembro, marca o aniversário da morte de Madre Teresa de Calcutá, em 1997, uma mulher cuja obra também começou por aproximação e presença junto às pessoas mais esquecidas.

Os fundadores foram, antes de tudo, ouvintes

A história da SSVP costuma ser contada pelas datas. Mas há um detalhe que diz mais sobre o carisma vicentino do que qualquer efeméride: os fundadores precisaram ser ensinados a visitar.

O grupo formado por Frederico Ozanam, Auguste Le Taillandier, Francisco Lallier, Júlio Devaux, Felix Clave e Paulo Lamanche — todos entre 19 e 23 anos — tinha convicção, fé e disposição, mas não tinha método. Quem lhes deu esse método foi a Irmã Rosalie Rendu, Filha da Caridade, que atuava no bairro de Mouffetard, no subúrbio de Saint-Marceau, uma das regiões mais Pobres da Paris da época. Segundo os registros biográficos publicados pelo Conselho Geral Internacional (CGI), a religiosa "compreendeu a vocação dos jovens, entusiastas e generosos", levou-os até os Pobres e "ensinou-lhes a maneira de servi-los com amor e respeito, na mais autêntica tradição do 'Senhor Vicente'". Emmanuel Bailly, que presidia o grupo, foi o primeiro presidente da Sociedade.

Servir com respeito significava, na prática, não chegar com respostas prontas. Significava perguntar, ouvir a história inteira e só depois agir. É essa a tradição que São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac consolidaram dois séculos antes, no lema que a Sociedade herdou: servir a Cristo na pessoa dos Pobres.

Quatro caminhos de um mesmo cuidado

A psicóloga clínica Maria Judite Vieira de Matos, integrante da Rede de Afeto da SSVP, organiza a caridade vicentina em quatro dimensões que se completam:

  • Caridade afetiva (o cuidar com empatia) — "a dimensão que nasce no coração": a escuta atenta, o acolhimento sem julgamento e a compaixão diante do sofrimento alheio.
  • Caridade efetiva (o servir em ação) — a concretização do amor em gestos práticos, "o trabalho de nossas mãos", como dizia São Vicente de Paulo: o auxílio material imediato a quem está em situação de vulnerabilidade.
  • Caridade promocional (o cuidar para a autonomia) — vai além do alívio momentâneo e busca oferecer ferramentas para que a pessoa supere a condição de pobreza e conquiste autonomia e cidadania.
  • Caridade sistêmica e estrutural (o servir com justiça) — identifica e enfrenta as causas profundas da pobreza e da exclusão, com atenção aos direitos humanos e às políticas públicas.

"A integração entre cuidar, dimensão relacional e afetiva, e servir, dimensão prática e transformadora, garante que a ação vicentina permaneça humana, respeitosa e verdadeiramente libertadora", escreve a psicóloga.

Onde a escuta vicentina encontra seu limite

É justamente na primeira dessas dimensões que mora uma dúvida frequente entre quem faz visitas: até onde vai o acolhimento?

A visita à família assistida é, nas palavras da profissional, "o coração desse compromisso": um gesto de presença "onde a escuta atenta transforma a dor da vulnerabilidade em esperança e dignidade". Mas exercer a caridade com responsabilidade exige compreender a natureza dessa escuta "e a fronteira clara que a separa do ato psicoterapêutico".

A distinção não está no tamanho da dor que se ouve, nem na formação de quem escuta. "O contraponto está na finalidade, no enquadre metodológico e na natureza do vínculo", afirma Maria Judite.

De um lado está a escuta que trata: profissional, intencional e fundamentada teoricamente, realizada dentro de uma relação terapêutica, com o objetivo de compreender e trabalhar o sofrimento psíquico. Do outro, a escuta que acolhe: social, humana, voltada à compreensão da realidade familiar, com a finalidade de conhecer necessidades, apoiar e encaminhar.

Uma diferença fundamental

Escuta terapêutica

  • Tem finalidade psicológica/terapêutica.
  • É realizada dentro de um enquadre profissional.
  • Busca compreender e trabalhar o sofrimento psíquico.
  • Pode envolver intervenções psicológicas.
  • Possui enquadre, limites e responsabilidade técnicos específicos.
  • Não deve ser confundida com aconselhamento.

Escuta na visita vicentina

  • Tem finalidade de acolhimento e assistência.
  • Ocorre em um contexto de visitas e ação social.
  • Busca conhecer necessidades e realidade da família. Prioriza acolher, ouvir, apoiar e encaminhar.
  • Possui limites relacionados à atuação assistencial.
  • Pode incluir orientação social/assistencial conforme a função exercida.

Acolher não é tratar, e reconhecer isso também é caridade

O quadro acima traduz uma orientação prática para o dia a dia das Conferências: quem visita acolhe, ouve, apoia e encaminha, mas não diagnostica, não interpreta e não conduz tratamento.

Reconhecer esse limite não diminui a visita vicentina. Ao contrário: protege a família assistida, que merece receber cuidado qualificado quando o sofrimento é de ordem psíquica, e protege também quem faz a visita, que não deve carregar sozinho uma responsabilidade que não lhe cabe. A escuta que acolhe tem um valor próprio e insubstituível, ela devolve dignidade a quem raramente é ouvido. E, quando percebe que a dor pede outro tipo de cuidado, ela sabe para onde apontar.

Na SSVP, esse caminho tem nome: a Rede de Afeto, serviço dedicado ao cuidado emocional e à promoção da saúde mental dentro e fora da Sociedade. A Rede reúne psicólogos de diversas regiões do país, que oferecem atendimento gratuito a pessoas em situação de sofrimento emocional, e é coordenada por Silvia Regina Simões Torres da Silva, psicóloga e integrante da SSVP desde 2018. "Cuidar da saúde mental significa oferecer uma escuta sem pressa, no gesto de quem se dispõe a estar com o outro", afirmou a coordenadora ao assumir o serviço.

Uma data para lembrar do começo

A caridade que a ONU celebra em 5 de setembro vai muito além da doação em dinheiro: envolve gentileza, empatia, tempo e apoio emocional, e é descrita pela organização como uma ferramenta de construção de sociedades mais justas, inclusivas e resilientes.

Para a Sociedade de São Vicente de Paulo, essa definição não é nova. Ela está inscrita no gesto fundador de 1833 e se repete, toda semana, em milhares de salas de estar pelo Brasil, onde alguém senta, escuta e não tem pressa. É por isso que a data importa: ela lembra que a caridade começa quando alguém decide ouvir e amadurece quando essa pessoa sabe, com humildade, até onde pode ir.

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