Antes de existir uma cesta básica, um encaminhamento ou um projeto social, existiu uma conversa. Quando seis estudantes se reuniram em Paris, em 23 de abril de 1833, para fundar a primeira Conferência de Caridade, o que eles fizeram de mais radical não foi doar. Foi entrar na casa de uma família pobre, sentar-se e escutar. Amanhã, 5 de setembro, quando o mundo celebra o Dia Internacional da Caridade, essa discussão volta ao centro: a caridade vicentina nasce do ouvido antes de nascer da mão.
O Dia Internacional da Caridade foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em dezembro de 2012. A data escolhida, 5 de setembro, marca o aniversário da morte de Madre Teresa de Calcutá, em 1997, uma mulher cuja obra também começou por aproximação e presença junto às pessoas mais esquecidas.
A história da SSVP costuma ser contada pelas datas. Mas há um detalhe que diz mais sobre o carisma vicentino do que qualquer efeméride: os fundadores precisaram ser ensinados a visitar.
O grupo formado por Frederico Ozanam, Auguste Le Taillandier, Francisco Lallier, Júlio Devaux, Felix Clave e Paulo Lamanche — todos entre 19 e 23 anos — tinha convicção, fé e disposição, mas não tinha método. Quem lhes deu esse método foi a Irmã Rosalie Rendu, Filha da Caridade, que atuava no bairro de Mouffetard, no subúrbio de Saint-Marceau, uma das regiões mais Pobres da Paris da época. Segundo os registros biográficos publicados pelo Conselho Geral Internacional (CGI), a religiosa "compreendeu a vocação dos jovens, entusiastas e generosos", levou-os até os Pobres e "ensinou-lhes a maneira de servi-los com amor e respeito, na mais autêntica tradição do 'Senhor Vicente'". Emmanuel Bailly, que presidia o grupo, foi o primeiro presidente da Sociedade.
Servir com respeito significava, na prática, não chegar com respostas prontas. Significava perguntar, ouvir a história inteira e só depois agir. É essa a tradição que São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac consolidaram dois séculos antes, no lema que a Sociedade herdou: servir a Cristo na pessoa dos Pobres.
A psicóloga clínica Maria Judite Vieira de Matos, integrante da Rede de Afeto da SSVP, organiza a caridade vicentina em quatro dimensões que se completam:
"A integração entre cuidar, dimensão relacional e afetiva, e servir, dimensão prática e transformadora, garante que a ação vicentina permaneça humana, respeitosa e verdadeiramente libertadora", escreve a psicóloga.
É justamente na primeira dessas dimensões que mora uma dúvida frequente entre quem faz visitas: até onde vai o acolhimento?
A visita à família assistida é, nas palavras da profissional, "o coração desse compromisso": um gesto de presença "onde a escuta atenta transforma a dor da vulnerabilidade em esperança e dignidade". Mas exercer a caridade com responsabilidade exige compreender a natureza dessa escuta "e a fronteira clara que a separa do ato psicoterapêutico".
A distinção não está no tamanho da dor que se ouve, nem na formação de quem escuta. "O contraponto está na finalidade, no enquadre metodológico e na natureza do vínculo", afirma Maria Judite.
De um lado está a escuta que trata: profissional, intencional e fundamentada teoricamente, realizada dentro de uma relação terapêutica, com o objetivo de compreender e trabalhar o sofrimento psíquico. Do outro, a escuta que acolhe: social, humana, voltada à compreensão da realidade familiar, com a finalidade de conhecer necessidades, apoiar e encaminhar.
Escuta terapêutica
Escuta na visita vicentina
O quadro acima traduz uma orientação prática para o dia a dia das Conferências: quem visita acolhe, ouve, apoia e encaminha, mas não diagnostica, não interpreta e não conduz tratamento.
Reconhecer esse limite não diminui a visita vicentina. Ao contrário: protege a família assistida, que merece receber cuidado qualificado quando o sofrimento é de ordem psíquica, e protege também quem faz a visita, que não deve carregar sozinho uma responsabilidade que não lhe cabe. A escuta que acolhe tem um valor próprio e insubstituível, ela devolve dignidade a quem raramente é ouvido. E, quando percebe que a dor pede outro tipo de cuidado, ela sabe para onde apontar.
Na SSVP, esse caminho tem nome: a Rede de Afeto, serviço dedicado ao cuidado emocional e à promoção da saúde mental dentro e fora da Sociedade. A Rede reúne psicólogos de diversas regiões do país, que oferecem atendimento gratuito a pessoas em situação de sofrimento emocional, e é coordenada por Silvia Regina Simões Torres da Silva, psicóloga e integrante da SSVP desde 2018. "Cuidar da saúde mental significa oferecer uma escuta sem pressa, no gesto de quem se dispõe a estar com o outro", afirmou a coordenadora ao assumir o serviço.
A caridade que a ONU celebra em 5 de setembro vai muito além da doação em dinheiro: envolve gentileza, empatia, tempo e apoio emocional, e é descrita pela organização como uma ferramenta de construção de sociedades mais justas, inclusivas e resilientes.
Para a Sociedade de São Vicente de Paulo, essa definição não é nova. Ela está inscrita no gesto fundador de 1833 e se repete, toda semana, em milhares de salas de estar pelo Brasil, onde alguém senta, escuta e não tem pressa. É por isso que a data importa: ela lembra que a caridade começa quando alguém decide ouvir e amadurece quando essa pessoa sabe, com humildade, até onde pode ir.
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