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Ozanam, precursor da Doutrina Social: de Rerum Novarum a Magnifica Humanitas

Após o Papa Leão XIV assinar sua primeira encíclica sobre os desafios da inteligência artificial, vicentinos mostram como o legado de Frederico Ozanam já apontava para a defesa da "magnífica humanidade" diante das transformações do seu tempo

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Escrito por Ricaella Inocente

03 JUL 2026 - 09H00

Neste ano, o Papa Leão XIV assinou sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. O documento foi tornado público em junho, por ocasião do 135º aniversário da Rerum Novarum, a encíclica com a qual, em 1891, o Papa Leão XIII lançou as bases da Doutrina Social da Igreja diante das transformações trazidas pela Revolução Industrial.

Nela, Leão XIV faz um apelo direto: preservar "uma magnífica humanidade habitada por Deus", promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a justiça social e a paz diante de um tempo em que, segundo o Pontífice, a tecnologia não é neutra, ela "tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam".

Para a SSVP, a coincidência entre as duas encíclicas não é apenas simbólica. Foi justamente no ambiente intelectual que gerou a Rerum Novarum, a Paris do século XIX, marcado pela pobreza urbana da industrialização, que Frederico Ozanam e seu grupo de amigos fundaram, em 1833, as primeiras Conferências vicentinas. Quase dois séculos depois, a SSVP Brasil ouviu dois de seus membros para refletir sobre como o pensamento de Ozanam ajuda a compreender os desafios da inteligência artificial e a reafirmar a dignidade humana diante da desumanização.

Ozanam e a atualidade da Doutrina Social

Para o Pe. Sebastião Márcio Maciel, assessor espiritual do Conselho Central (CC) de Santa Rita do Sapucaí/MG e estudioso da obra de Ozanam, a proximidade entre os dois momentos históricos é direta. Segundo ele, quando Ozanam foi questionado sobre a ação concreta da Igreja diante da miséria, sua resposta foi buscar os Pobres não para contemplar a pobreza, mas para fortalecer corpo e espírito, partilhando o alimento e perguntando pelas causas daquela miséria. As causas da pobreza no tempo de Ozanam, lembra o padre, estavam ligadas à Revolução Industrial, ao inchaço das cidades e à falta de trabalho digno; hoje, o desemprego permanece, e a inteligência artificial, usada de forma egoísta, pode aumentar a exclusão do ser humano.

Victor Borges, Ecafo do Conselho Metropolitano (CM) de Rio Preto/SP e responsável pelas Relações Institucionais do CM Rio Preto, na Região 4, aprofunda esse paralelo histórico. Ele observa que, tanto no pensamento de Ozanam quanto no de Leão XIII, a preocupação central era como a eclosão de novas ferramentas tecnológicas impactaria a vida das pessoas, do ponto de vista econômico, social e também na forma como seriam enxergadas pela sociedade. Para Victor, a Doutrina Social da Igreja e o pensamento de Ozanam continuam relevantes porque fazem, ao mesmo tempo, a leitura dos tempos atuais e uma crítica ética de como ferramentas que deveriam auxiliar o ser humano acabam, muitas vezes, por substituí-lo.

Uma ferramenta a serviço da promoção humana e não sua substituta

Os dois entrevistados concordam sobre o risco de a tecnologia substituir o encontro, a escuta e a presença junto aos Pobres, que é o cerne da espiritualidade vicentina. O Pe. Sebastião lembra que, nas visitas que Ozanam e seus amigos faziam às famílias Pobres, o gesto central era dar atenção, escutar as pessoas, perguntar por suas necessidades. Uma inteligência artificial bem utilizada, segundo o padre, pode ser aliada dessa missão: ele cita como exemplo a otimização da logística de doações, permitindo que Conselhos e Conferências saibam com precisão o estoque de alimentos e roupas disponível e localizem as famílias que mais precisam, o que evita desperdício e agiliza a chegada da ajuda a quem necessita. Mas ele insiste: a tecnologia deve servir para que sobre mais tempo para o que realmente importa: a oportunidade de afeto, convivência e conversa entre confrades, consócias e famílias assistidas.

Victor reforça esse limite com um princípio: as novas tecnologias são subsidiárias ao ser humano. Elas devem servir a todos e não se valer de alguns para empoderar outros. Para ele, as ferramentas tecnológicas podem auxiliar a promoção humana, mas não podem assumir a centralidade das relações, nem entre as pessoas, nem na relação entre o ser humano e Deus. Quando essa substituição acontece, avalia Victor, deixam de ter espaço princípios como a fraternidade, a decência, a dignidade da pessoa humana e o cuidado com a ecologia, valores que tanto Ozanam quanto a Doutrina Social da Igreja colocaram no centro de sua reflexão desde o século XIX.

Os riscos apontados pela Igreja

Sobre os riscos concretos da desumanização pela tecnologia, o Pe. Sebastião recorre diretamente à encíclica de Leão XIV para descrever o que está em jogo: quando o ser humano é reduzido a números em nome do lucro, quando responsabilidades são delegadas sem que exista um responsável identificável, quando as relações entre pessoas se tornam artificiais e o calor humano desaparece, quando o poder tecnológico se concentra nas mãos de poucos, a dignidade da pessoa humana fica comprometida. O documento pontifício reforça esse alerta ao afirmar que a Doutrina Social remete ao núcleo central da fé cristã, "o mistério do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo que se doa reciprocamente e se comunica ao mundo", como fundamento para pensar como conviver em sociedade a partir do Evangelho, promovendo justiça e paz.

Victor amplia esse diagnóstico para o campo da comunicação e da informação. Para ele, um dos aspectos mais graves do momento disruptivo atual é a forma como redes sociais e ferramentas digitais desvirtuam informações, alimentando um processo de desinformação em que se torna difícil separar o que é correto do que serve apenas para manipular a opinião pública em benefício de quem lucra com esse desvirtuamento. Questionado sobre o que mais preocuparia Ozanam diante do avanço da inteligência artificial, Victor foi direto: o esfriamento da solidariedade e da atenção ao ser humano, com a individualidade das pessoas podendo se dissolver no uso das tecnologias.

O que a espiritualidade vicentina tem a oferecer?

Diante desses riscos, os dois entrevistados apontam caminhos concretos e complementares. O Pe. Sebastião recorre à própria identidade vicentina: na SSVP, a pessoa não é um número, mas alguém que possui dignidade inviolável, que precisa ser respeitada, vista e reconhecida por meio de relacionamentos sérios, que fortaleçam a defesa dos mais vulneráveis e ofereçam caminhos em vez de dar continuidade à lógica do descarte. Para o padre, o legado de Ozanam ensina que o conhecimento adquirido deve ser usado como meio, e não como fim: todos os recursos disponíveis devem servir para encurtar distâncias e promover a pessoa de forma integral.

Victor propõe uma frente mais prática: para que os Pobres não fiquem à margem dessa nova realidade tecnológica, a SSVP pode buscar a capacitação dos assistidos e dos próprios vicentinos para lidar com as ferramentas atuais, sem perder de vista o essencial do serviço aos Pobres. É a mesma lógica, lembra ele, que já orientava o pensamento social cristão desde o século XIX: que a caridade seja capaz de alcançar aquilo que a justiça, sozinha, não consegue entregar, reconhecendo que nem sempre as instituições humanas bastam para garantir dignidade aos mais Pobres, e que a ação vicentina ajuda a preencher essa lacuna.

Um chamado que atravessa dois séculos

Quase 200 anos separam a fundação das primeiras Conferências vicentinas do lançamento da Magnifica Humanitas, mas o fio que une os dois momentos permanece o mesmo: a convicção de que nenhum avanço técnico ou econômico pode justificar a redução da pessoa humana a um número, um algoritmo ou um dado de produtividade.

Se a Rerum Novarum respondeu às questões do capital e do trabalho na era industrial, a Magnifica Humanitas propõe hoje um discernimento semelhante diante da inteligência artificial, e a SSVP, herdeira direta daquele mesmo impulso de ir ao encontro dos Pobres que moveu Ozanam e seus amigos, se reconhece chamada a viver esse discernimento na prática: usando a tecnologia como instrumento de aproximação e nunca como substituto do encontro, da escuta e da presença que são a marca da caridade vicentina.

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