Se é uma máxima universal que "a educação muda o futuro" e se os vicentinos têm como pilar a “mudança de vida de seus assistidos”, imagine o que pode acontecer quando se unem o trabalho vicentino e a educação! Pois é isso que faz o Projeto do CNB “Investindo na Vida”, que, na edição deste ano, selecionou três assistidas para arcar com as mensalidades das faculdades até a conclusão dos cursos.
É acreditando no poder transformador da educação e de que dar os instrumentos corretos a quem precisa que a SSVP Brasil criou o projeto, que está em sua segunda edição (a primeira realizada na gestão de Márcio José da Silva) e que, desta vez, irá transformar em realidade os sonhos das jovens Adriele Lorayne Lima da Cunha, Ana Beatriz Gomes dos Santos e Lívia Gabrielle de Aguiar Pereira.
Superando as dores
Aos 19 anos, Adriele tem uma história longa com os vicentinos, que começa, sem ela saber, na infância e segue agora na vida adulta. Apesar da pouca idade, ela teve que amadurecer rápido e muito cedo. “São várias coisas que eu tive que passar muito nova e que eram coisas que adulto precisava ter passado. Eu não conheço meu pai e tenho três irmãos. E só eu sou filha de pai diferente. Eles são filhos do mesmo pai. Minha mãe casou com o pai dos meus irmãos quando eu tinha, acho que, dois anos, então ele que me criou. Mas ela não estava preparada para ser mãe, ou, se ela estava preparada, não estava fazendo as coisas de mãe. Que é o quê? Proteger a criança”, relembra.
Quando era criança, sua família direta e a de sua tia eram acompanhadas pela Pastoral da Criança, que, sempre que necessário, acionava os vicentinos em momentos de emergência.
Na época, as crianças tinham seu crescimento acompanhado de perto por três integrantes da Pastoral: Cadu, Ana Paula e Nilda. Cadu é Carlos Eduardo Alves da Silva, que era da Pastoral da Criança e depois entrou na SSVP com a esposa, Ana Paula. “Eu lembro que a gente sempre passava pela pesagem (acompanhamento do ganho de peso e desenvolvimento da criança). Depois, comecei a ir com as minhas primas, que eram mais novas. Então eu conheço o Cadu e a sua esposa, Ana Paula, desde quando eu era bem pequena. Todos nós da família passamos pela pesagem e, às vezes, recebíamos a cesta de alimentos”, recorda a jovem.
O tempo passou e, por várias questões internas da família, Adriele deixou de morar com a mãe. Primeiro foi morar com um namorado, depois com parentes. E foi morando com uma tia que ela tomou consciência de quem eram os vicentinos, pois a família era assistida.
A vida difícil que poderia desviar o caminho dela. “De lar em lar dos meus parentes, eu consegui chegar onde eu estou. Morando sozinha e bem”, conta.
Adriele ficou um tempo sem reencontrar Cadu, até que, recentemente, seus caminhos voltaram a se cruzar. “Já fazia um tempo que eu não via ele e o encontrei recentemente. Ele perguntou sobre a vida, eu contei que tinha acabado de sair do emprego, que estava procurando. Ele me indicou para uma empresa e voltamos a nos falar. Os vicentinos não me ajudam com a cesta, como faziam com a minha família, mas sim com palavras, conversas e oportunidades”, explica.
E foi numa dessas conversas que Cadu perguntou a Adriele se ela estava estudando, e ela disse que não. Ele contou sobre o “Investindo na Vida” e ela, sobre o sonho de fazer Administração de Empresas. “Ele me inscreveu para participar do Programa e aí eu fui só na fé de Deus, porque eu achei que não ia dar certo. Eu tô muito feliz de ter sido selecionada, porque eu sei que eram várias pessoas querendo ter uma oportunidade dessas e eu fui selecionada. A faculdade não estava nos planos agora, porque eu não poderia pagar, daí vem esse presente de Deus”, conta ela, emocionada ao saber que foi uma das selecionadas nacionalmente para ganhar a bolsa.
Adriele conta que desde cedo queria algum dia trabalhar como gerente administrativa ou ser empresária. “Sabe quando perguntam o que quer ser quando crescer? Nunca consegui me identificar com bombeiro, médico, polícia, psicóloga, que são profissões mais comuns no sonho das pessoas. Eu sempre me imaginei trabalhando no escritório. Em rotina administrativa, mexendo no computador”, explica ela, que, mesmo antes de entrar na faculdade, já começou a ir atrás desse sonho, trabalhando como jovem aprendiz no RH de uma famosa empresa da região de ferro e aço.
O sonho dela pode ser considerado simples para alguns, mas é grandioso para aquela menina que passou por tantas provas e adversidades na vida. As aulas começam em fevereiro do ano que vem, na Unifev, em Votuporanga, mas ela já sabe o que quer a seguir. “No futuro, depois de formada, quero algum dia ser líder geral de alguma equipe, ser gerente.” Ela também já sabe os frutos que esse sonho pode gerar. “Hoje já tenho certa independência financeira, mas quero conquistar aquela da gente ter um trabalho bom. Não precisar ficar se matando para poder receber o mínimo. Porque eu tenho três irmãos mais novos e, se algum dia eles precisarem de mim, eu possa ajudar financeiramente ou com minha experiência. Quero evoluir e estar bem estruturada para poder ajudar eles”.
Corpo e alma
A jovem Ana Beatriz Gomes dos Santos, de Terezópolis de Goiás/GO, carinhosamente chamada de Bia, tinha recém completado 18 anos quando ficou sabendo que havia sido selecionada para o “Investindo na Vida”. Assistida desde 2023, a família de Bia começou a ser assistida pela SSVP quando seu Wellington ficou afastado do trabalho por questões médicas e as coisas, como diz a própria jovem, “ficaram apertadas e conseguimos a ajuda dos vicentinos para a cesta de alimentos”.
Até poucos dias antes de ser contemplada com o Projeto, Bia morava com seu pai, Wellington Lúcio, a mãe, Cleunice, e o irmão Davi Luiz, de 13 anos. A família, que já passava por algumas dificuldades que a levaram até a SSVP, viu a situação piorar quando o seu Wellington faleceu em 1º de junho.
Bia estava cursando o primeiro semestre de Enfermagem na Faculdade Metropolitana de Anápolis (Fama) quando aconteceu a mudança estrutural da família e ela não conseguiria pagar a mensalidade da faculdade. Foi aí que o vicentino e diácono Jurandir Dias Barroso contou para ela sobre o “Investindo na Vida”. “Ele me falou da bolsa e fui inscrita para participar da seleção. Eu comecei a concorrer, só que estava com o pé atrás, pensei que eu não ia conseguir não”, lembra.
Por ironia do destino, Bia, que está sendo ajudada para cursar a faculdade, escolheu o curso de Enfermagem justamente para ajudar o próximo. “É uma área assim que me interessa porque eu gosto de ajudar os outros. A enfermagem, para mim, é uma área que, além de você estar lá para poder ajudar as pessoas com medicamentos, você também pode ajudar os pacientes com a palavra amiga. Ou, às vezes, até falar também sobre Deus”, explica.
Bia tem consciência de que, sem a ajuda do Investindo na Vida, seu desejo de se tornar enfermeira seria impossível. “Eu não teria condições se não fosse isso, ainda mais depois do falecimento do meu pai. Depois que eu terminar a faculdade, que dura cinco anos, eu já quero começar a trabalhar, ter meu próprio dinheiro para poder ajudar minha mãe e minha família”, conta.
Quanto aos futuros pacientes, ela tem apenas uma vontade genuína: “Quero ajudar a curar o espírito e o físico de cada um deles”, sonha Bia.
Vocação descoberta em casa
Aos 19 anos, Lívia Gabrielle de Aguiar Pereira divide o tempo entre o trabalho, a casa e a família. Moradora de Varginha/MG, vive com a mãe Giana, de 48 anos, a avó Marisa, de 70 anos, e a irmã Emanuele, de apenas cinco. Desde 2024, elas são assistidas pelos vicentinos, que chegaram justamente quando a família atravessava um período de muitas dificuldades.
A situação ficou ainda mais delicada quando Giana, que trabalha na área de logística, precisou ser afastada do serviço por causa de uma síndrome do túnel do carpo. Recebendo apenas o benefício do INSS, a renda da casa diminuiu e Lívia precisou começar a trabalhar. Como também cuida da avó e da irmã pequena, conseguiu uma vaga como jovem aprendiz em uma empresa do ramo de alimentação. Parte do salário ajuda nas despesas da casa.
Foi justamente cuidando da irmã que ela descobriu o que gostaria de fazer da vida.
Quando terminou o Ensino Médio, Lívia ainda não sabia qual profissão escolher. Até que resolveu pensar naquilo que fazia melhor. "Eu pensei numa coisa que eu sou boa: cuidar da minha irmã", conta.
A irmã mais nova é filha de outro relacionamento da mãe e, com o pai preso, Lívia praticamente ajudou a criá-la. Era ela quem acompanhava os deveres da escola, ensinava as primeiras letras e ajudava nas atividades. Aos poucos, percebeu que gostava de ensinar. "Eu gosto de cuidar. Eu gosto de ensinar."
Foi assim que surgiu a vontade de cursar Pedagogia. Incentivada pela mãe, decidiu apostar na profissão que mais combinava com aquilo que sempre fez naturalmente. Hoje, sonha em trabalhar na alfabetização. "Eu queria ensinar criancinhas da idade da minha irmã. Acho tão bonito ver elas aprendendo as letras, aprendendo a escrever."
Só havia um problema. Apesar de ter feito o ENEM, a nota não foi suficiente para conseguir uma vaga perto de casa. Estudar em outra cidade nunca foi uma possibilidade. "Como que eu largo tudo aqui? Não tem como deixar minha mãe, minha avó e minha irmã."
Foi então que ela procurou a vicentina Maria da Glória Silverio de Aguiar, a Glória, que já assistia a família, para saber se existia alguma possibilidade de conseguir uma bolsa de estudos. Ao lado do companheiro de Conferência, Ireno Félix Fagundes, Glória contou sobre o Projeto “Investindo na Vida” e fez a inscrição de Lívia para participar da seleção.
Ela conta que recebeu a notícia durante o expediente de trabalho. Sem acreditar no que estava lendo, correu para o banheiro para conferir novamente a mensagem. Em seguida, avisou a mãe, que ligou para Glória para confirmar que aquilo era verdade. "Está todo mundo feliz aqui em casa."
Agora, com a graduação em Pedagogia, que começa no próximo semestre, garantida na FACECA – Faculdade CNEC Varginha, Lívia já pensa no futuro. Quer aproveitar cada oportunidade de estágio para ganhar experiência, ser a primeira pessoa da família a conquistar um diploma universitário e retribuir tudo o que recebeu. "Os vicentinos vão mudar minha vida. Se Deus quiser, vou conseguir ter uma condição melhor, ajudar mais aqui em casa e conhecer um mundo novo."
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