“Era o último pedido da minha filha. Ele vai ficar.” Foi com essas palavras firmes e cheias de fé que a avó de Marcos do Carmo Gerônimo, mais conhecido como Marcos Torresmo, decidiu acolhê-lo, depois de dias de rejeição e abandono. Esse gesto simples, mas carregado de amor, foi o primeiro passo para uma trajetória marcada por dor, luta, fé e, sobretudo, transformação. E é justamente a sua história que escolhemos a dedo para fechar a coluna “Exemplos que Arrastam” em 2025, para que cada vicentino lembre ou relembre o quanto seu trabalho e sua vocação podem transformar vidas.
Filho de Maria do Carmo e Pedro Amantino, migrantes de Guanhães/MG para Lagoa Santa/MG, Marcos cresceu em meio à instabilidade e ao alcoolismo dos pais. “Minha mãe morreu quando eu era pequeno e meu pai trabalhava na lavoura e só voltava no final de semana. Os meus cinco irmãos foram adotados. Eu não, era levado demais. Fiquei no barracão e nas ruas, sozinho”, recorda. Viveu da generosidade dos vizinhos e da comida da escola, até que, depois de muita insistência, conseguiu o aval do avô materno, Efigênio, para morar com ele e a avó Alice.
Mesmo com tantas carências — “vivíamos sem luz e sem água encanada, dormíamos cedo à luz de lamparina e bebíamos água do córrego” —, Marcos não deixou de lutar. Ainda menino, ajudava o avô na roça e vendia verduras na comunidade com um carrinho e um balaio. O esforço chamava atenção: “Logo ganhei clientes fixos e meu avô passou a me admirar.”
Foi nesse cenário que os Vicentinos da Conferência Santa Cruz apareceram em sua vida. Os vicentinos Antônio Tomaz, Joaquim Nonato e Roberto ofereceram alimentos, acolhida e escuta. “Eu e minha avó participávamos das reuniões, mesmo como intrusos, mas éramos sempre recebidos com carinho”, conta. O menino assistido começava a descobrir um novo caminho.
Aos 13 anos, após a morte do avô, Marcos se tornou responsável pela casa. Estudava, trabalhava e cuidava da família. A insistência de Confrades abriu-lhe as portas da SSVP: primeiro como aspirante, depois como proclamado e, mais tarde, em vários encargos. “Quando e a Conferência nos atendia, não tínhamos o que comer nem roupa. Então, hoje eu quando eu levo a cesta, seja a da Conferência ou a que eu compro, porque hoje consigo, fico feliz demais. Eu saio revigorado pelo Espirito Santo. E eu vou na semana seguinte, visito meus amigos vicentinos, os idosos. Porque hoje eu vejo a vida de forma diferente. Não tem preço, não tem dinheiro que pague eu poder fazer pelo outro. É ganhar na loteria eu ter sido ajudado e hoje poder ajudar”, define.
Mas a vida ainda lhe reservaria provas duríssimas. Durante a pandemia, Marcos mergulhou no alcoolismo. “Perdi tudo: imóveis, carros, clientes, a fazenda, minha dignidade. Fiquei na sarjeta.” O fundo do poço veio com um coma alcoólico, quando ouviu do médico que teria apenas duas horas de vida. Sobreviveu. E foi novamente a mão estendida dos vicentinos que o resgatou. Convidado a montar uma estrutura para uma reunião, Marcos foi levado por Confrades ao Alcoólicos Anônimos. “Naquele dia decidi não beber mais”, diz.
Reconstruindo a própria vida, aceitou ser vice-presidente do Lar dos Idosos Sagrado Coração de Jesus, então afundado em dívidas. A missão parecia impossível: R$ 215 mil em débitos e risco de fechar. Sem dinheiro sequer para a passagem, Marcos caminhava 20 km para participar das reuniões. Com apoio da comunidade, dos vicentinos e de novos parceiros, o Lar foi se reerguendo — e junto com ele, a vida de Marcos.
Hoje, aos 42 anos, ele administra com orgulho o Lar dos Idosos, auxilia sua Conferência, apoia o Conselho Particular e mantém sua empresa de paisagismo, atendendo clientes renomados, como o jogador de futebol Hulk. “Todos os dias tiro um tempo para o Lar, seja para a parte administrativa, seja para um simples bate-papo com os idosos.”
Marcos não tem dúvidas sobre sua transformação: “Sou eternamente grato à SSVP, que me resgatou, me formou e me deu dignidade.”
De menino abandonado a líder vicentino, sua história ecoa a essência vicentina: transformar dor em esperança, assistido em protagonista de sua história, solidão em comunidade.
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