Durante dezembro e janeiro, quando muitas atividades sociais e institucionais diminuem, a desigualdade social se torna mais visível. A fome, o medo, a doença e a necessidade não esperam o fim das férias, por isso, o carisma vicentino também não pode parar.
Jean de Morais Araújo, confrade da Conferência Santo Antônio, em Governador Valadares/MG, e próximo 1º Vice-Presidente do Conselho Nacional do Brasil (CNB), faz uma pergunta simples e direta: “O mal, a fome, a necessidade, o medo e a doença esperam? As necessidades das famílias assistidas fazem férias? A resposta é não.”
Segundo ele, para de realizar as atividades das Conferências, mesmo que por um curto tempo, enfraquece o trabalho vicentino e compromete a essência da SSVP: “SSVP significa trabalho. As Conferências não fecham as portas por causa de catástrofes. Elas não podem parar. Deus não descansa de cuidar de nós”, afirma.
Na prática, Jean explica que as Conferências costumam se ajustar às realidades do período, sem abrir mão de suas atividades. Mudanças no dia, horário ou local das reuniões são opções comuns para garantir a continuidade dos encontros, visitas e atendimentos.
“É raro que todos os membros estejam impossibilitados de comparecer. Se três membros estiverem disponíveis, nunca será justificável deixar de se reunir”, reforça.
Mesmo em situações extremas, como desastres, a orientação é clara: se a reunião formal não for possível temporariamente, a caridade não pode parar. A assistência e o cuidado às famílias devem continuar.
Embora seja difícil medir um aumento objetivo das necessidades materiais, Jean destaca que dezembro e janeiro costumam ser meses de maior fragilidade emocional e psicológica para as famílias assistidas. A falta de laços familiares, a falta de pertencimento, a impossibilidade de participar das celebrações típicas e a frustração de não poder dar presentes às crianças tornam esse momento ainda mais delicado.
“Isso é frustrante para qualquer pessoa. E as famílias assistidas pela SSVP são ainda mais vulneráveis a essas questões”, explica.
Jean reconhece que a intensidade da vida moderna gera cansaço e que é normal que, em certos períodos, a presença de confrades e consócias diminua por motivos pessoais. O descanso individual é legítimo, mas isso não justifica que a Conferência, como grupo, interrompa suas atividades.
“O vicentino pode se ausentar por alguns dias; pode até deixar de participar uma ou duas vezes. Mas a Conferência não pode fazer o mesmo. O lugar dele fica vazio e isso precisa ser lembrado”, afirma.
O período natalino também gera gestos espontâneos de solidariedade. Muitas pessoas buscam a SSVP para fazer doações, confiando à instituição a missão de levar ajuda a quem precisa. Cestas especiais de Natal, presentes, alimentos e refeições compartilhadas são algumas das ações mais comuns nesse tempo.
Além da assistência material, a espiritualidade é fundamental: celebrações da Palavra, missas, confraternizações e momentos de partilha fortalecem os laços e reafirmam a dignidade das famílias assistidas.
Jean menciona que um dos grandes desafios atuais da SSVP é lidar com a cultura dos “recessos” longos, que muitas vezes são vistos como normais, mas não têm apoio na Regra. “Não há na Regra qualquer recomendação para suspender as atividades das Conferências em determinados períodos do ano. Deixar de se reunir é uma exceção, nunca uma regra”, destaca.
As palavras “férias” e “folga” não aparecem no texto da Regra, e o descanso mencionado refere-se à vida eterna, não à suspensão da missão. Práticas de paralisação, segundo ele, desorganizam o trabalho missionário e transmitem uma mensagem errada, especialmente aos novos membros.
Para as famílias assistidas, saber que podem contar com os vicentinos em qualquer época do ano traz segurança, confiança e fortalece os laços. A relação construída pela SSVP não é pontual, mas contínua, baseada em empatia, apoio material e espiritual.
“A ação dos vicentinos é uma vocação. Não é apenas trabalho voluntário. É apoio. E apoio sustenta nos momentos de maior necessidade. Apoio precisa de presença”, conclui Jean.
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