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A visita que quebra o isolamento

No Dia Internacional das Pessoas Idosas, conheça a história de José Francisco de Souza, vicentino há 38 anos em Paracatu/MG. Hoje ele recebe toda semana a visita de crianças e adolescentes vicentinos, um gesto que traduz o Ano Temático "Cuidar para s

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Escrito por Ricaella Inocente

01 OUT 2026 - 09H00

Toda quarta-feira, a casa de José Francisco de Souza, em Paracatu/MG, espera por visita. Aos 89 anos, o vicentino que durante décadas bateu à porta de famílias assistidas agora abre a sua para um grupo de crianças e adolescentes da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP). Eles chegam com o Evangelho do dia, rezam e escutam. "Toda quarta-feira ficamos ansiosos com a vinda deles para a visita", conta José. Ele divide a casa e a expectativa com a esposa, Ilda Rosa de Souza, de 87 anos.

A história ganha outro sentido neste 1º de outubro. Na data se celebram o Dia Internacional das Pessoas Idosas, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1990, e o Dia Nacional do Idoso, criado no Brasil pela Lei nº 11.433/2006 em referência à data de promulgação do Estatuto da Pessoa Idosa. E a história ganha urgência diante de um alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo relatório da Comissão sobre Conexão Social da OMS, divulgado em junho de 2025, a solidão está associada a mais de 871 mil mortes por ano no mundo, cerca de 100 por hora. Entre os fatores que favorecem a solidão e o isolamento, o documento aponta problemas de saúde e o fato de viver sozinho.

38 anos de caminhada

José e sua esposa, lda Rosa de Souza, de 87 anos, recebem as visitas todas as quarta-feiras.

José chegou à SSVP a convite de um grupo de vicentinos que decidiu fundar uma nova Conferência no bairro onde ele mora, a Conferência Nossa Senhora de Fátima. Em 38 anos, fez de tudo um pouco. Visitou famílias assistidas, ajudou na construção e reforma de moradias, participou de campanhas de alimentos e dava banho em pessoas idosas do Asilo São Vicente.

Hoje, a idade avançada e os cuidados com a esposa o impedem de acompanhar as reuniões. A saudade aparece quando ele fala do tempo de serviço: "Eu fico imaginando que um dia eu também fazia as visitas toda semana. Tenho muita saudade daquele tempo e, ao mesmo tempo, agradeço pela oportunidade que a SSVP me deu ao longo desses anos".

A pergunta de uma criança de 8 anos

As visitas começaram com uma pergunta. Durante a partilha em uma reunião da Conferência de Crianças e Adolescentes (CCA) São Geraldo, uma criança de 8 anos quis saber se o grupo poderia visitar uma pessoa idosa. Segundo o orientador da CCA, confrade Renê Pereira dos Santos, dali surgiu a ideia de visitar um vicentino mais experiente, que ajudasse a trabalhar a espiritualidade das crianças. Os nomes de José Francisco e Ilda vieram logo à lembrança. O vicentino, José, faz parte de uma família que já está na terceira geração na SSVP.

A CCA São Geraldo é vinculada ao Conselho Particular (CP) Santa Luísa de Marillac, do Conselho Central (CC) de Paracatu, na área do Conselho Metropolitano (CM) de Patos de Minas.

As visitas são semanais. O grupo lê o Evangelho do dia e faz a partilha com as crianças, e a cada 15 dias reza o terço com o casal. Para a CCA, o encontro vai além do compromisso de agenda. "Representa a oportunidade de aprendizado e de valores que muitas vezes são esquecidos pela correria do dia a dia, como sentar em volta de uma mesa e conversar sem preocupação", explica Renê. "Naquele momento, nós escutamos histórias vividas por eles. É muito gratificante ouvir o quanto eles eram felizes, mesmo com o pouco recurso que tinham na época."

"Eu precisava da palavra de Deus"

Para José, o valor da visita não está no que se carrega nas mãos. "Eles não precisavam chegar com sacola de roupa, sacola de comida. Eu não precisava disso. Eu precisava da palavra de Deus", diz. Ele guarda também o cuidado das crianças: "O menino chegava e me perguntava se eu estava bem".

Aos vicentinos mais jovens, deixa um pedido de constância. "A caminhada tem que ser uma caminhada de perseverar", afirma. "A mensagem é que eles continuem com esse trabalho maravilhoso, cuidando com muito zelo."

Cuidar de quem já serviu

A história de Paracatu mostra duas dimensões do Ano Temático 2026, "Cuidar para servir".

A primeira é o cuidado organizacional. A visita não depende de uma disposição eventual. Ela tem dia marcado, orientador responsável e um roteiro de leitura, partilha e oração. É a organização que garante que a presença se repita, e é a regularidade que rompe o isolamento. A própria Regra da SSVP prevê que, nas reuniões, o presidente designe confrades e consócias para realizar as visitas (Artigo 136, inciso VI).

A segunda é o cuidado fraterno: quem visitou durante 38 anos agora é visitado. Esse movimento dialoga com o convite feito em junho pelo Conselho Nacional do Brasil (CNB) para que as Conferências realizem ações concretas de cuidado com os próprios membros, compartilhadas nas redes com a hashtag #cuidardaconferencia.

Renê resume esse sentido com uma imagem que também está na capa do livro do Ano Temático, a da árvore da caridade: "Cuidar de quem já serviu é viver o hoje e sentir que no passado foi plantada uma árvore da qual hoje podemos saborear os frutos, e semear as sementes para que as gerações futuras possam continuar o legado de caridade, amor, zelo e compromisso".

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