"Eu nunca te esquecerei" (Is 49,15). O tema escolhido pelo Papa Leão XIV para o VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, celebrado neste 26 de julho, é um convite para que famílias, comunidades e toda a sociedade voltem o olhar aos idosos, especialmente àqueles que vivem a dor da solidão e do abandono.
Esse chamado faz parte da missão realizada diariamente pelos Lares de Idosos da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), onde o cuidado vai além da assistência e busca devolver dignidade, fortalecer vínculos familiares e oferecer uma nova oportunidade para quem, muitas vezes, perdeu as referências de um lar.
Na Casa do Ancião Chichico Azevedo, Obra Unida da SSVP em Belo Horizonte/MG, vivem atualmente 88 idosos, com idades entre 60 e 104 anos. A maioria chegou ao Lar em situação de desproteção social, após enfrentar abandono, violência, pobreza, negligência ou o rompimento dos laços familiares.
Para o Presidente da Comissão de Intervenção da Obra Unida, Lucas Natálio Valeriano, ainda existe um olhar equivocado sobre os Lares de Idosos, vistos por muitos apenas como o destino de quem perdeu tudo. "Nosso propósito é fazer com que a Casa seja um lugar de acolhimento, dignidade e esperança. É oferecer um novo fôlego àqueles que passaram tantos anos sufocados pela ausência da família, pelo abandono da sociedade ou pela falta de oportunidades para envelhecer com respeito", afirma.
Mais do que oferecer moradia, alimentação e cuidados de saúde, a Casa desenvolve um trabalho permanente de fortalecimento dos vínculos familiares. Por meio de busca ativa, a equipe psicossocial procura familiares, amigos e pessoas que fizeram parte da história de vida dos moradores, tornando possível o reencontro de dezenas de famílias.
"O carisma de São Vicente de Paulo nos ensina que a pobreza não é apenas material; muitas vezes ela se manifesta na solidão, na falta de afeto e na ausência de alguém disposto a ouvir. O vicentino chega para abraçar, escutar, respeitar e devolver dignidade. É uma presença que transforma", destaca Lucas.
Segundo ele, administrar uma Obra Unida é colocar a pessoa no centro de todas as decisões. "Cada melhoria realizada, cada visita, cada abraço e cada reencontro familiar representam uma forma concreta de viver o Evangelho por meio da caridade."
Neste Dia dos Avós, a mensagem do Papa ganha sentido na rotina dos Lares de Idosos da SSVP. Enquanto a Igreja recorda que nenhum idoso deve ser esquecido, os vicentinos transformam esse chamado em gestos concretos de acolhimento, cuidado e esperança. É nesse ambiente que vive Maria da Conceição Gomes dos Santos, cuja trajetória mostra que, mesmo depois de enfrentar perdas, violência e a separação dos netos, ainda é possível recomeçar.
"Aqui eu encontrei a paz"
"Você quer saber da história triste, da história de violência ou da história feliz?" A pergunta de Maria da Conceição Gomes dos Santos surpreende logo no início da entrevista. Aos 71 anos, ela conhece bem as três fases da própria vida. Mas, curiosamente, passa toda a conversa sorrindo mesmo quando lembra as partes dolorosas.
Antes das dificuldades, dona Maria viveu uma longa história de felicidade ao lado do marido, Pergentino Rodrigues. Casados por quase 52 anos, construíram uma família com três filhos e sete netos.
Após a morte dele, a vida mudou completamente. Ela assumiu a criação de quatro dos netos, entre eles Samuel, hoje com 15 anos. "Eu criei todos quatro na minha cama", relembra com carinho.
Com o agravamento de uma situação de violência familiar, os quatro netos foram acolhidos pela rede de proteção e passaram a viver em Casas de Acolhimento. Pouco tempo depois, dona Maria também foi acolhida na Casa do Ancião Chichico Azevedo, onde vive há quase cinco anos.
Ao recordar sua chegada ao Lar, resume a mudança em uma frase marcante que traduz o significado daquele recomeço: "Eu saí do inferno e entrei no céu."
Os primeiros dias, porém, não foram fáceis. Ela conta que chegou rebelde, passava boa parte do tempo fechada no quarto e chorava com saudade dos netos. Aos poucos, foi encontrando acolhimento nas pessoas que conviviam com ela diariamente. Faz questão de lembrar das colaboradoras Graça, Ana Paula e, principalmente, da supervisora Glaucilene Pereira da Rocha, a quem hoje chama de filha."Ela cuida de mim com muito carinho", explica.
Glaucilene acompanhou essa transformação de perto. "Nós a recebemos com muito amor e carinho. Aos poucos, ela foi recebendo esse amor e foi se libertando", conta.
Hoje, dona Maria diz que encontrou uma nova família. Gosta de ouvir rádio, ler a Bíblia e participar da rotina da Casa. O sorriso fácil revela que a tranquilidade voltou a fazer parte da sua vida. "Eu sou feliz aqui. Aqui eu encontrei a paz", resume sorrindo ainda mais.
Ela segue sem contato com os filhos e com a maior parte dos netos. Os quatro, que ela diz ter criado "em sua cama", continuam vivendo em Casas de Acolhimento. Apenas Samuel consegue visitá-la regularmente, a cada quinze dias. "Eu vou para a portaria e fico olhando a estrada para ver se ele chega", conta sobre a ansiedade de rever o neto.
Samuel está fazendo um curso de informática e sonha em trabalhar. A avó acompanha cada conquista com orgulho. "Ele diz que quando eu morrer, ele vai ficar sozinho. Mas eu falo para ele: 'Não esquece que eu te amo demais'. Para dar força", lembra.
Sobre os outros netos, ela recebe notícias por meio de Samuel. Foi assim que soube que três deles estão em fase final de adoção. Em vez de lamentar a distância, prefere rezar para que encontrem uma família. "Peço a Deus que eles sejam felizes. Eles precisam de um pai e de uma mãe."
Para Samuel, deseja que continue estudando, siga seu caminho e seja muito feliz.
No Dia dos Avós, dona Maria não faz pedidos para si. Ela pede felicidade para os netos, especialmente para Samuel, para os idosos da Casa e para os funcionários que transformaram sua vida. "Quero que todos sejam felizes. Os idosos daqui e os funcionários são a minha família", sintetiza.
A história de dona Maria traduz, na prática, o tema proposto pelo Papa Leão XIV para este Dia Mundial dos Avós e dos Idosos. Quando alguém encontra acolhimento, escuta e amor, a promessa contida na passagem de Isaías, "Eu nunca te esquecerei", deixa de ser apenas uma mensagem bíblica e passa a ser vivida todos os dias.
Com a filha de coração Claucilene, a supervisora do Lar
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