No dia em que o Brasil celebra Nossa Senhora Aparecida, a Região 4 da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) lembra que sua Padroeira também é conhecida por quem vive a fé na estrada, nas visitas e no cuidado com a família. A história de Mariana Gonçalves Frydman, da Conferência Nossa Senhora Mãe da Igreja, de Mogi das Cruzes/SP, reúne tudo isso.
Mariana está na SSVP há cerca de 25 anos. Frequentava a Conferência desde criança, acompanhando a mãe. A devoção a Nossa Senhora Aparecida chegou ainda antes, dentro da própria casa. “Meus pais são muito católicos e devotos de Nossa Senhora Aparecida. Aprendi com eles desde cedo a amar Nossa Senhora Aparecida”, conta.
Hoje, essa devoção faz parte dos seus dias, no terço e na conversa constante com a Mãe. “Converso com a Mãezinha do céu todos os dias e praticamente a todo tempo”, diz.
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A promessa nasceu de um momento de aflição na família. Miguel, sobrinho de Mariana, enfrentava um problema no ouvido que prejudicava a audição e a fala. Segundo a mãe do menino, Luciana Gonçalves Correa Pereira, ele passou por uma cirurgia complexa no fim de 2018 e precisou de dois anos de cuidados no pós-operatório, sem poder molhar o ouvido. Os médicos explicaram que, se o problema voltasse, uma nova cirurgia só seria possível na juventude, e ele poderia ter sequelas.
Em um dia próximo a 12 de outubro, Luciana voltou de uma consulta muito abatida e contou à irmã o que o médico havia dito: havia uma data limite para a cura. Foi então que Mariana fez a promessa. “Lulu, fica tranquila, Deus está cuidando e faço aqui agora uma promessa pedindo a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, que, sendo mãe, entende sua aflição: se o Miguel se recuperar, no próximo ano eu vou para Aparecida a pé para agradecer a graça alcançada.”
A família recebeu a recuperação com emoção, praticamente na data limite, mas com a fé de que Nossa Senhora cuidaria do menino. Segundo Luciana, o ouvido de Miguel ficou totalmente curado, ele passou a ouvir e a falar normalmente e não teve sequelas.
A pandemia de Covid-19 adiou o cumprimento da promessa. Em 2020, a Basílica esteve fechada e havia a recomendação de que as pessoas não fizessem peregrinações. A caminhada ficou para 2021.



Em 5 de outubro de 2021, Mariana partiu de Mogi das Cruzes pela Rota da Luz, o caminho de peregrinação que liga a cidade ao Santuário Nacional de Aparecida em cerca de 200 quilômetros. Ao todo, foram sete dias de caminhada, com um grupo de aproximadamente 20 pessoas, todas desconhecidas.
Ela não foi sozinha. O marido, André Leite de Siqueira Frydman, e o cunhado, Gustavo Henrique Correa Pereira, pai de Miguel, decidiram acompanhá-la. “Me senti fortalecida para seguir a caminhada e, desde então, já senti o cuidado e o amor de Deus e de Nossa Senhora Aparecida para comigo.”
Os dias começavam com o terço rezado em trio. Depois vinham o silêncio, as conversas com quem cruzava o caminho e as histórias e testemunhos que ouviam pela estrada.
No segundo ou terceiro dia, uma forte dor no joelho quase a impediu de continuar. Mariana conta que passou a conversar com Nossa Senhora em pensamento: “Minha mãezinha, eu fiz essa promessa e quero pagar, me ajuda a dar mais um passo, me ajuda a fechar esse dia.” Durante um bom tempo, uma borboleta azul e preta voou perto dela, e a lembrança a emociona até hoje. Quando o marido sugeriu que pedisse carona a um carro de apoio, ela respondeu que ia caminhar devagar até a próxima curva e, se ficasse insuportável, pararia. E pediu um sinal.
“Quando fui me aproximando da curva, meu joelho praticamente não dobrava, eu ia parar. Foi quando olhei para frente e vi dois anjos: um casal que dava apoio de carro aos peregrinos.” Eles tinham remédio, uma cadeira de praia e bolsas de gelo. Mariana descansou, medicou-se, agradeceu e seguiu. “Depois desse capítulo, eu não senti dor em mais nenhum dia.”
Nos portões da Basílica, o pai de Mariana e Luciana esperavam o grupo. Entre lágrimas e abraços, a família foi direto aos pés de Nossa Senhora Aparecida para agradecer a graça alcançada por Miguel e a proteção durante o caminho.
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A caminhada mudou a vida de Mariana de modo geral e, também, sua maneira de servir como vicentina. O casal da estrada, que estava ali, disponível e sem esperar nada em troca, tornou-se um exemplo para ela.
“Tento, em cada visita que vou, estar verdadeiramente disponível, seja para ouvir, seja para atender uma necessidade urgente, que pode ser um gás no sábado à noite, um chuveiro novo em um dia frio, um mimo para as crianças assistidas, ou para dar uma palavra de conforto e fé”, conta. “Sempre com a certeza de que, o que pedimos à Mãe com o coração verdadeiro e cheio de fé, o Filho ouve.”
Miguel tem hoje 10 anos e participa da Conferência ao lado dos pais. A família também guarda outro episódio. Em uma internação por crise de asma, com a saturação baixa e usando oxigênio, o menino disse ao pai que estava melhor, porque uma médica negra havia cuidado dele e garantido que ele ficaria bem. O pai procurou entre os profissionais do plantão, mas não havia ninguém com essa descrição. A saturação de Miguel melhorou depois desse momento.
Para Mariana, Nossa Senhora Aparecida representa “amor e fé”. Depois de se tornar mãe, ela diz compreender ainda mais a força da Padroeira: “Se eu, que sou uma mãe humana, faço tudo o que posso pelo bem da minha filha e para socorrê-la em suas aflições, imagina a mãe do meu Senhor, que também é minha?”
A mensagem dela aos vicentinos cabe em uma frase: “Não se esqueçam do poder da oração.”
Nossa Senhora Aparecida é a Padroeira da Região 4, mas a devoção dos vicentinos a ela não se limita a uma região.
A história da devoção começa em 1717, nas águas do rio Paraíba do Sul, onde três pescadores, Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves, encontraram a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Depois do encontro, a pesca escassa deu lugar a uma pesca abundante. A pequena imagem de terracota ficou conhecida como “Aparecida”, e em 1930 o Papa Pio XI a proclamou Rainha e Padroeira do Brasil. Desde 1980, o 12 de outubro é feriado nacional.
Para os vicentinos, essa história tem um sentido próprio. Assim como os pescadores, cada vicentino é chamado a lançar as redes da caridade em águas cada vez mais profundas. Para o Assessor Espiritual do Conselho Nacional do Brasil (CNB), Padre Allan Júnio Ferreira, C.M., Nossa Senhora Aparecida é “uma mãe amorosa e acolhedora” que envolve em seu manto, de modo especial, os que mais sofrem. Mãe dos Pobres e dos humildes, ela é também o modelo do espírito vicentino: acolher, escutar e amar sem distinção.
A Padroeira da Região 4 nasceu de um momento de renovação da SSVP. Nos anos 1990, a SSVP no Brasil passava por transformações impulsionadas pela juventude, e os Conselhos Metropolitanos foram regionalizados para simplificar e otimizar as ações. Foi nesse processo que cada região foi consagrada a uma devoção mariana. A ideia foi proposta pelo confrade Pedro Tenuto e colocada em prática com a criação dos Regionais da Juventude Vicentina.
Leandro de Ávila Prudente, Coordenador Nacional da Conferência de Crianças e Adolescentes (CCA), que acompanhou o processo, lembra que os jovens acolheram bem a proposta. Segundo ele, a escolha foi feita rapidamente e sem muita discussão, mas com o cuidado de que “cada região escolheu sua padroeira” sem repetição. A Região 4 ficou com Aparecida.
A escolha tem um significado especial: é na cidade de Aparecida, no Vale do Paraíba paulista, que fica o Santuário Nacional, para onde milhares de fiéis peregrinam todos os anos.
O encontro dos vicentinos com a Padroeira se renova a cada ano na Romaria Nacional dos Vicentinos, no Santuário de Aparecida.
A próxima Romaria já tem data e tema. A 55ª será de 30 de abril a 2 de maio de 2027, com o lema “Onde a Mãe está, nosso coração peregrina”. Para a coordenadora da Romaria, Maria Margarete Santos, 2ª vice-presidente do Conselho Nacional do Brasil (CNB), a palavra “peregrina” fala de sair de si e pôr-se a caminho, como o vicentino que visita as famílias e vai ao encontro de quem sofre. “Se Maria é nossa Mãe, vamos ao seu encontro”, resume.
É esse mesmo movimento que a história da Mariana revela: um passo de cada vez, com o terço na mão, até os pés da Mãe.
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