Quem faz visita domiciliar entra na casa das pessoas antes de qualquer serviço de saúde. Senta na sala, acompanha a família ao longo de meses, às vezes de anos, e é frequentemente a primeira pessoa a notar quando algo mudou: o tom da fala, o sono desregulado, a tristeza que não passa, o afastamento de tudo o que antes dava prazer. É desse lugar, e não de um consultório, que nasce boa parte da prevenção ao suicídio.
Em 10 de setembro se marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, data assinalada desde 2003 pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP), em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Federação Mundial para a Saúde Mental (WFMH). No Brasil, a data se ampliou na campanha Setembro Amarelo, idealizada no fim de 2014 e realizada desde 2015. O tema trienal da IASP para 2024–2026 é justamente "Mudando a narrativa sobre o suicídio", uma convocação a falar do assunto de outro jeito.
Para Elenilde da Silva Conceição Cruz, Coordenadora da Conferência de Crianças e Adolescentes (CCA) da Conferência Nossa Senhora de Fátima, no povoado Varzinha das Olarias, em Itiúba/BA, e psicóloga integrante da Rede de Afeto da SSVP Brasil, o ponto de partida é entender de que tipo de problema se está falando.
"Uma campanha de prevenção e mobilização social não depende apenas do serviço de saúde, pois o suicídio trata-se de um problema que depende das relações sociais, das informações e da capacidade que a sociedade tem de reconhecer o sofrimento emocional das pessoas e ofertar apoio adequado", afirma.
Os serviços especializados são indispensáveis, mas não bastam sozinhos. "Os serviços de saúde oferecem cuidados especializados, mas não são capazes, por si sós, de resolver situações sociais que ultrapassam a rede de cuidado em saúde mental", explica. Daí a importância da mobilização social: ampliar as informações sobre saúde mental, sobre os fatores de risco, sobre os sinais de alerta, e envolver a rede de apoio que ajuda a fortalecer os laços afetivos.
É nesse ponto que a visita domiciliar deixa de ser apenas assistência e passa a ser prevenção. "O vicentino tem um papel fundamental na prevenção ao suicídio, pois são agentes de mobilização por estarem sempre em visitas domiciliares, se tornando rede de apoio no fortalecimento dos vínculos afetivos entre as pessoas por meio da escuta e do olhar sensível", diz a psicóloga.
E completa: "O vicentino se torna um agente de mudança, orientador e facilitador na rede de proteção e apoio, ajudando as pessoas a buscarem alívio para o sofrimento."
Não é preciso formação clínica para notar que algo mudou. Segundo Elenilde, a percepção começa por alterações no comportamento habitual da pessoa: a maneira de falar, a expressão de tristeza e angústia, o sono desregulado, o isolamento.
Há ainda um indicativo que costuma passar despercebido: "mudança repentina relacionada a atividades do dia a dia que não realiza mais com prazer como antes". A rotina que se esvazia é, muitas vezes, o primeiro aviso.
A resposta descrita pela psicóloga é simples de enunciar e exigente de praticar: "Quando o vicentino está com a pessoa que precisa de ajuda, ele disponibiliza acolhimento, escuta com atenção e sem julgamento a pessoa em sofrimento, demonstra afeto, não deixa a pessoa sozinha e busca ajuda de familiares e serviços de cuidado."
Falar sobre o assunto, ao contrário do que o senso comum sugere, protege. Ajuda "se buscarmos compreender a pessoa em sofrimento, não deixar ela sozinha, tentar transmitir confiança e manter o vínculo", afirma Elenilde.
E atrapalha, este é o alerta, prometer segredo. Segundo ela, prejudica "prometer que não vai falar para ninguém sobre o assunto, não buscar ajuda na rede de cuidado e proteção para a pessoa em sofrimento e deixar ela sozinha". Sigilo absoluto, diante de risco, isola justamente quem mais precisa de rede.
Há uma frase que continua circulando e que, segundo a psicóloga, precisa ser desmistificada: "Quem fala em suicídio não vai fazer nada; está apenas querendo chamar atenção."
Ela aparece com frequência diante de pessoas em sofrimento emocional, com ideação suicida ou mesmo em risco imediato. Levar a sério quem expressa dor, em vez de desqualificar a fala, é o primeiro passo da prevenção.
Percebido o sofrimento, o caminho é sempre buscar as redes de apoio e proteção. Quando há risco, a orientação de Elenilde é encaminhar, conforme a situação, para:
Há uma dimensão da prevenção que raramente entra nas campanhas: o cuidado de quem cuida. "O vicentino que escuta precisa sempre estar se cuidando, buscando reconhecer seus limites, pois a pessoa que vive no cuidado com o outro também pode carregar sofrimento e, por isso, é importante se cuidar e se proteger", afirma a psicóloga.
Reconhecer o limite não é falta de generosidade. "Não precisa carregar tudo sozinho, é necessário perceber seus próprios sinais de alerta em situações que envolvam sua saúde mental; e assim, manter sua própria vida em sociedade."
Elenilde sugere ações concretas de cuidado em saúde mental que cabem na realidade de qualquer Conferência:
Serviço da SSVP Brasil voltado ao cuidado emocional e à promoção da saúde mental, dentro e fora da instituição. Reúne psicólogos de diversas regiões do país, que oferecem atendimento gratuito e online a pessoas em situação de sofrimento emocional. O primeiro contato é feito por WhatsApp: (32) 9 8514-4131.
Apoio emocional e prevenção do suicídio, de forma gratuita, sigilosa e 24 horas por dia, por telefone (188), chat, e-mail e atendimento presencial. Site: cvv.org.br
SAMU 192, UPA 24h, pronto-socorro ou hospital mais próximo.
CAPS e UBS do seu município.
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