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Quatro refeitórios, uma só mesa: como os vicentinos de Itaúna/MG acolhem quem tem fome

Mantidos pelo Conselho Central de Itaúna, os refeitórios de Morada Nova, Irmãos Auler, Santanense e Garcias servem, em média, 3.700 refeições por mês e fazem da hora do almoço um espaço de escuta e cuidado

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Escrito por Ricaella Inocente

16 OUT 2026 - 09H00

De segunda a sábado, a mesa está posta em quatro comunidades de Itaúna/MG. Ali, quem chega em busca de uma refeição encontra também alguém que o escute. É o trabalho dos refeitórios comunitários do Conselho Central (CC) de Itaúna, que, neste Dia Mundial da Alimentação, lembrado em 16 de outubro, mostra como a caridade vicentina se faz presente no dia a dia.

O tema ganha atualidade no cenário nacional. O Brasil foi mantido fora do Mapa da Fome na edição de 2026 do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI)”, divulgado em 21 de julho pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O mesmo relatório, porém, indica que 9,6% da população brasileira vivia em insegurança alimentar moderada ou grave no triênio 2023-2025, ou seja, sem acesso regular a uma alimentação adequada. A necessidade segue presente na rotina de muitas famílias, e é a ela que os refeitórios respondem.

Quatro comunidades, uma mesma proposta

Os refeitórios ficam nas comunidades de Morada Nova, Irmãos Auler, Santanense e Garcias. Cada unidade tem seu território, mas todas fazem parte de uma única proposta de atendimento e promoção humana, desenvolvida pelo CC.

O trabalho nasceu da própria percepção dos vicentinos sobre as necessidades das comunidades onde atuam. “A proposta surgiu da necessidade de oferecer não apenas alimento, mas também acolhimento e promoção humana”, explica a coordenadora de Projetos Sociais do CC de Itaúna, Claudia Batista Pinheiro. Com o tempo, a ação foi se estruturando e chegou às quatro unidades de hoje.

Quem é acolhido

Os refeitórios atendem pessoas em situação de vulnerabilidade e insegurança alimentar: crianças, adolescentes, idosos, gestantes, mulheres em período de amamentação, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua e outras famílias que precisam desse apoio. O acesso pode acontecer por indicação dos próprios vicentinos ou por encaminhamento da rede socioassistencial, especialmente dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS).

Como a rotina se organiza

As unidades funcionam de segunda-feira a sábado, das 7h às 13h. A distribuição das refeições acontece principalmente no almoço, das 11h às 13h. Em média, os quatro refeitórios juntos oferecem 3.700 refeições por mês.

Por trás de cada prato, há uma organização diária das equipes, que cuidam do preparo, da higienização, da organização do espaço e da distribuição. Cada refeitório conta com uma cozinheira contratada pelo Conselho Central e outra cedida pela Prefeitura. Uma nutricionista acompanha tecnicamente as quatro unidades.

Uma rede de solidariedade

A estrutura física e a equipe são só parte da história. O Conselho Central conta com aproximadamente 609 vicentinos envolvidos em sua atuação, e os refeitórios recebem ainda o apoio de pessoas da comunidade. As Conferências têm papel fundamental: próximas das comunidades, os vicentinos conhecem as situações de vulnerabilidade do território, identificam quem precisa do atendimento, acompanham famílias e contribuem para os encaminhamentos.

A manutenção dos refeitórios também se apoia em empresários, doadores e no poder público. Há convênio com a Prefeitura Municipal, além de doações de pessoas e empresas.

“Uma refeição chega à mesa porque muitas pessoas contribuíram de alguma maneira: quem doa, quem cozinha, quem organiza, quem serve, quem acompanha e quem acolhe.”

Alimentar também é cuidar

Para os vicentinos de Itaúna, o refeitório vai além do prato. É espaço de acolhimento, convivência, escuta e promoção humana. Muitas vezes a pessoa chega em busca de uma refeição e, aos poucos, constrói uma relação de confiança com os profissionais e os vicentinos. À mesa, é possível conversar, ouvir e perceber situações que talvez não fossem identificadas de outra forma.

“Mais do que alimentar, estamos dizendo àquela pessoa que ela é vista, que sua vida importa e que ela não está sozinha.”

Segundo Claudia, a fome raramente é só falta de alimento: está ligada à pobreza, ao desemprego, ao rompimento de vínculos e à falta de oportunidades. Por isso, o CC trabalha para fortalecer a articulação com a rede de proteção social e o referenciamento dos beneficiários junto aos CRAS. A ideia é que o refeitório seja uma porta de entrada para identificar vulnerabilidades e aproximar as pessoas dos serviços, das políticas públicas e dos benefícios a que têm direito, favorecendo sua autonomia.

“Solidariedade se constrói com presença. Não basta falar sobre a fome. É preciso estar perto, conhecer a realidade das pessoas e buscar soluções concretas.”

Um recado a quem quer começar

A quem pensa em iniciar uma ação parecida em seu Conselho ou Conferência, Claudia recomenda começar olhando para a realidade da comunidade: conhecer as necessidades do território, ouvir as pessoas e construir uma rede de parceiros. “Uma ação de alimentação não deve ser pensada apenas como distribuição de comida. É preciso pensar em dignidade, acolhimento, segurança alimentar e articulação com a rede de proteção social”, afirma.

Para conhecer o trabalho

Quem quiser conhecer os refeitórios ou colaborar pode procurar o Conselho Central de Itaúna, na Rua Manoel Gonçalves, nº 94, Centro, Itaúna/MG, pelo telefone (37) 99905-2033 ou pelo e-mail [email protected]. Também é possível falar diretamente com os vicentinos e as Conferências da cidade.

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