Hoje é o Dia Internacional da Mulher. E, em homenagem a cada vicentina, assistida, voluntária, benfeitora e funcionária de nossas Obras Unidas, vamos contar a história de Maria Cemires Pinto da Silva, de 65 anos, da comunidade rural do Espinho, no município de Gouveia/MG. Ela, como tantas outras mulheres do nosso país e do mundo, tem uma história marcada por dor, resiliência, resistência e profunda fé. Proclamada há aproximadamente dez anos, sua ligação com a SSVP é mais antiga e começa, como muitas, na assistência.
Maria Cemires é a terceira de nove irmãos (uma falecida na infância) e nasceu e cresceu na comunidade rural de Pedro Pereira, no município de Gouveia/MG. Aos 11 anos, a família se mudou para a comunidade quilombola de Espinho, também em Gouveia. Aos 13 anos viu sua vida mudar, quando a mãe faleceu 20 dias depois do nascimento da última filha. Com isso, a jovem foi forçada a crescer e de filha passou a fazer o papel de mãe. “Eu queria cuidar da pequena, mas ela foi para uma prima. Meus irmãos mais velhos foram para outras roças trabalhar e fiquei eu, cinco irmãos e meu pai. Mas o pai bebia demais, gastava o que ganhava com isso, então, eu tinha que trabalhar na roça de um casal para garantir a comida minha e dos meus irmãos”, conta.
Quem pensa que Maria Cemires reclama da vida que levava na roça, engana-se. Apesar de todas as dificuldades e responsabilidades que não condiziam com a sua idade, ela afirma: “Foi uma infância meio atribulada e meio feliz. A gente ia para a roça, mas também brincava, aquele tempo era bom e olha que tinha dia que a gente cozinhava mandioca e tinha que rapar a panela com colher para comer depois”, lembra.
Ela não se lembra ao certo de quando passou a ter fé, só sabe que ela sempre esteve lá, em todos os momentos difíceis da vida e em suas alegrias. E foi a fé que a fez querer mudar de vida, depois de um casamento abusivo. Sofreu agressões físicas e verbais, assim como seus filhos. O marido enfrentava problemas com alcoolismo e, muitas vezes, o pouco recurso da família era gasto no vício, enquanto dentro de casa faltava o essencial. “Me casei aos 18 anos e meu marido foi para São Paulo trabalhar e veio me buscar um ano depois. Ele bebia muito, judiava. Tivemos três filhos: Debora Aparecida (45 anos), Rita Lidiane (41) e Cleber Damião (39). Sofri muito em São Paulo, vendia Avon para ajudar, mas o marido era agressivo. Quando bebia, voltava para casa e judiava. Até que um dia, depois dele colocar uma faca na minha garganta, esperei ele dormir, peguei meu dinheiro, as três crianças e fugi”.
Anjos
Daí começa a saga que levou Maria Cemires até os vicentinos e que contou, segundo ela, com vários anjos pelo caminho. “Para chegar no metrô, eu tinha que atravessar uma avenida muito movimentada e estava com as três crianças – uma de colo – e cheia de coisas. E quem apareceu para me ajudar e me colocar dentro do vagão foi um batedor de carteira. Quem acredita, um batedor de carteira ajudando? Quando cheguei na rodoviária, vi que não tinha dinheiro para duas passagens, pois a Debora já tinha sete anos e pagava. Me desesperei e falaram para eu ir com os pequenos e deixar a mais velha lá para o serviço social. Imagina que eu ia deixar uma filha para trás!”, recorda indignada.
Maria Cemires sentou e desesperada só conseguia chorar e pedir ajuda a Deus e a São Judas Tadeu. Foi quando uma freira se aproximou dela, ouviu sua história e começou a caminhar com ela pelas mesas da rodoviária pedindo ajuda. “Quando chegamos na terceira pessoa, o homem deu todo o dinheiro para a passagem e também para as mamadeiras do caminho”, emociona-se
Quando chegou em Belo Horizonte um novo desafio: tinha que pegar o ônibus para Gouveia e o dinheiro doado já tinha acabado. Foi então que a filha mais velha, Débora, pediu a uma senhora que ia embarcar e tinha uma saia rodada e comprida, para entrar debaixo da saia e subir no ônibus. Pois não é que a senhora deixou? Embarcaram com Débora escondida e assim foram em boa parte da viagem, até que na hora que o motorista percebeu, era tarde demais, e elas seguiram caminho.
Ao chegar em Gouveia, mais precisamente na comunidade de Espadeiro, foi morar junto com a sogra e passou a sofrer com o preconceito. “Eu era muito mal tratada porque fui a primeira ‘largada’ e com filhos lá. Tinha fofoca e o povo ficava olhando. Mas eu vivi. Plantava e vendia legumes e verduras para colocar comida em casa. Mas minha sogra era muito dada, ajudava todo mundo, e o dinheiro nunca dava. Como eu conversava com muita gente, me mandaram ir nos vicentinos”, recorda.
E ela foi. Na época, a comunidade não tinha uma Conferência e ela tinha que andar 11 quilômetros até Gouveia para poder falar com eles e pedir ajuda. Maria Cemires criava sozinha três filhos pequenos e trabalhava vendendo frutas e verduras na cidade vizinha de Datas. Foi nesse período que os vicentinos estenderam a mão. A Conferência São Tarcísio ajudou com alimentos, doações e presença. O trabalho vicentino foi decisivo para a sobrevivência da família. “Encontrei o seu Raimundo, o Zenon e o Odilon, que me davam a cesta. Era essa ajuda que eu tinha para colocar comida pros meus filhos. E fiquei um ano e oito meses de assistida, sem isso, não conseguiria. Enquanto isso, eu ia de enxada para a terra dos outros e fui plantando nuns espaços de terra que a sogra ia me dando”.
Eu pegava o que já tinha na minha plantação, mandioca, milho, e ia para a cidade de Datas vender. Colocava as coisas no cavalo e andava a pé quatro horas para ir e quatro horas para voltar, puxando o cavalo. Fiz isso por 15 anos e esse dinheiro que usei para deixar de ser assistida e começar a manter a família. Hoje, quando faço o caminho de carro, tenho a certeza de que não era eu que caminhava, era Deus”, conta.
Missão
Os filhos saindo de casa para casar, estudar, mas Maria Cemires não largou a enxada. E foi depois de casada que a filha Débora, que tinha o hábito de ir à Igreja com o marido, foi convidada para uma reunião vicentina. Uma Conferência – a Nossa Senhora Aparecida – tinha acabado de ser fundada na comunidade de Espinho, vizinha a Espadeiro, e ela e o marido aceitaram participar. Debora teve ‘o coração tocado’ e foi proclamada junto com o marido. Hoje as filhas Maria Clara e Cassiana também frequentam a Conferência. “Ela vivia me chamando para ir, lembrava que os vicentinos tinham ajudado a gente. Até que um dia eu fui, tem uns dez anos, me encantei e nunca mais saí”.
Maria Cemires se casou de novo e agora vive feliz, com Alair. “A gente já estava junto e minha filha não gostava porque não era casado. Eu não podia tomar a hóstia e sentia falta do corpo de Cristo. Daí, falamos com o padre e ele nos casou em 2009”.
Hoje, permanece firme e feliz em sua vocação, servindo com a mesma fé que um dia a sustentou. Quando perguntada como aguentou tantas provações, ela responde de maneira pausada, simples e com a voz trêmula, cheia de emoção: “Deus foi minha superação, foi quem me ajudou. Jesus me afastou de muita coisa ruim e me aproximou dos vicentinos. Hoje me apego a Frederico Ozanam e São Vicente. Os vicentinos não podem esmorecer, devem continuar fazendo suas obras, orações, visitas. Hoje cada vez que vou na reunião, na visita, volto sempre com o coração mais forte!”
A história de Maria Cemires retrata a realidade de muitas mulheres no nosso país, que sofrem violência doméstica e trabalham arduamente para criar seus filhos, na maioria das vezes, sozinhas. Mas ela também nos mostra que a fé, uma mão estendida e a caridade podem mudar vidas e, com certeza, mudam.
* Com a colaboração especial do Decom de Diamantina/MG
Maria Cemires e a neta Maria Clara
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