Elas chegaram às Conferências ainda crianças, conduzidas pela mão de mães e avós. Ou foram convidadas por membros que enxergaram nelas um dom. Ou simplesmente encontraram na SSVP o lugar onde vocação e competência podiam caminhar juntas, sem precisar escolher entre uma e outra. Neste 1º de Maio, Dia do Trabalhador, a SSVP Brasil celebra quatro mulheres que tornaram seu trabalho profissional uma extensão do serviço vicentino e que, ao fazê-lo, mostram que a caridade não tem horário marcado para começar nem para terminar.
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Camilla de Freitas Pereira cresceu dentro da Sociedade. Entre os quatro e cinco anos de idade, ela já acompanhava a mãe e a avó nas reuniões, nas campanhas de arrecadação de alimentos e nas visitas às famílias assistidas. A Conferência São Dimas, ligada ao Conselho Metropolitano (CM) de Belo Horizonte, foi o seu primeiro lar fora de casa.
Doutora e Mestre em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, com pós-graduação em Direito Público e Docência com Ênfase em Educação Jurídica, Camilla tem passagem por universidades no Brasil e na Espanha, contruindo uma trajetória sólida na advocacia para o terceiro setor. Em 2015, quando o presidente do CM de Belo Horizonte a chamou para ajudar em algumas questões jurídicas da unidade, ela não imaginou que aquela reunião marcaria uma virada definitiva.
“Havia um forte chamado dentro de mim sobre a missão, que tudo aquilo não era 'mais um trabalho'. Dizia muito mais respeito sobre colocar tudo o que Deus me deu numa perspectiva técnica, de alguma forma, para a missão vicentina.”
Hoje, o escritório de Camilla atua em áreas como direito trabalhista, tributário, cível, associativo, ambiental e empresarial, todas voltadas para as necessidades do terceiro setor. Mas é na forma de exercer essa advocacia que mora a diferença vicentina:
“Ser advogada da Sociedade de São Vicente de Paulo é, antes de tudo, assumir uma missão que vai muito além do exercício técnico do Direito. É atuar na defesa de uma instituição cuja essência é a caridade, a dignidade da pessoa humana e o cuidado com os mais vulneráveis.”
Entre as experiências que marcaram essa trajetória, uma em especial permanece gravada na memória. A pedido de uma doadora, mulher que, anos antes, fora assistida pela SSVP, Camilla foi até um hospital redigir seu testamento ao lado do leito.
“Foi um momento de grande responsabilidade e profunda emoção — um testemunho vivo de gratidão e do impacto transformador da caridade ao longo da vida.”
Para as mulheres que desejam unir vocação e profissão, Camilla tem uma convicção: as virtudes femininas — a escuta atenta, a sensibilidade, o acolhimento — não são fragilidades. São forças que humanizam o ambiente profissional e tornam a atuação mais completa e verdadeira.
“A vocação vicentina, quando vivida com autenticidade, ilumina caminhos, dá sentido ao trabalho e nos lembra, todos os dias, que servir com amor é também uma forma de exercer nossa profissão com responsabilidade, propósito e transformação real.”
Ester de Padua Ferreira não escolheu a SSVP: nasceu dentro dela. Terceira geração de vicentinos na família, ela lembra do primeiro contato como uma memória de infância pura: "sendo levada no colo ou puxada pela mão dos confrades" quando a mãe ia às visitas. Sua avó materna foi uma das fundadoras da Conferência São Francisco de Assis, em Queimados, no Rio de Janeiro, e os avós paternos também eram vicentinos. Proclamada em 1998, Ester carrega a Sociedade no sangue e no cotidiano.
Em 2006, ela foi indicada por um vicentino para trabalhar no Conselho Nacional do Brasil (CNB), iniciando como freelancer na digitação do censo da SSVP. Em 1º de fevereiro de 2007, foi efetivada como funcionária. Desde então, passou por diversas funções — secretária, responsável pelo Boletim Brasileiro, protocolo, área financeira — até chegar ao cargo que ocupa hoje: Gerente Administrativa e Financeira do CNB.
“Função de muita responsabilidade, discrição e cuidado. Pois sou a porta de entrada e saída dos departamentos e funções executadas no CNB.”
Quando fala sobre os desafios de ser, ao mesmo tempo, profissional e vicentina, Ester é direta: a tensão existe e é real. Conciliar a espontaneidade da caridade com os processos e metas de uma instituição estruturada exige equilíbrio constante.
“Ser vicentino significa estar profundamente comprometido com a caridade e a ajuda direta aos mais necessitados. Ao mesmo tempo, trabalhar na SSVP exige metas e processos internos, que podem parecer burocráticos. É fundamental manter a espiritualidade e os valores da Sociedade, mesmo diante das pressões administrativas e operacionais da instituição.”
Mas é também a SSVP que está presente nos momentos mais difíceis da vida de Ester. Em um período de desemprego, ela viveu sete meses sem conseguir pagar o aluguel e foi a partir do trabalho na Sociedade que conseguiu honrar a dívida e reconstruir sua estabilidade.
“A SSVP sempre esteve presente em minha vida, dentro da minha casa e inclusive no meu trabalho. São Vicente e o Beato Ozanam são instrumentos para minha caminhada, pois tudo que conquistei em minha vida é através da SSVP.”
Sobre o que aprendeu nessa jornada, Ester sintetiza com a clareza de quem viveu cada palavra: servir ao próximo é muito mais do que oferecer ajuda material, é oferecer presença, escuta e amor.
“Não basta fazer o bem, é preciso fazê-lo bem. Como mulheres fortes e dedicadas às causas que nos propomos, façamos do nosso trabalho um meio de propagação dos ensinamentos do nosso principal fundador.”
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Jaine Cardozo Ferreira entrou para a SSVP em 1992, convidada pelo vicentino Elias Máltaro a conhecer o trabalho da Sociedade. Foi proclamada em 24 de julho de 1994, na Conferência São Judas Tadeu. Hoje, ela faz parte da Conferência Nossa Senhora da Penha, onde exerce a presidência, mais uma das muitas funções que já ocupou ao longo de três décadas de caminhada vicentina.
Há 24 anos, Jaine trabalha como secretária executiva do CM de Governador Valadares. A oportunidade surgiu em 2002, quando ela fazia parte da Comissão de Jovens do CMGV e foi contratada pelo então presidente, Arnaldo Nick Junior.
“Um trabalho de muita responsabilidade, onde tenho observado que, na época em que estamos vivendo, temos um grande desafio, com tantas mudanças nas leis, precisamos estar sempre atualizados e prontos para orientar e ajudar nossos irmãos carentes a conseguirem o que eles têm direito para mudança de sua vida e também de sua família.”
Para Jaine, a vivência vicentina não se separa do exercício profissional. Foi dentro da Sociedade que ela aprendeu o que é o cuidado verdadeiro, não apenas com as coisas materiais, mas com as pessoas:
“Foi dentro da SSVP que eu aprendi a importância da amizade em todos os aspectos e situações. O zelo e o cuidado que temos que ter não só com as coisas materiais, mas também com seres humanos, as famílias assistidas, com os nossos confrades e consócias.”
Entre as histórias que marcaram sua trajetória, duas se destacam. A primeira é a de Elane, uma assistida que vivia com as duas filhas em uma casa de dois cômodos, sem banheiro adequado, dormindo em área externa e sem segurança. Por iniciativa da Conferência, a realidade foi transformada: um banheiro construído, piso colocado em toda a casa.
“Ainda faltam muitas coisas a fazer, mas melhoramos bastante e continuamos realizando aos poucos algumas melhorias.”
A segunda história é pessoal. Em uma das enchentes mais devastadoras de Governador Valadares — a chamada "enchente do barro" —, a casa de Jaine foi atingida por mais de 70 centímetros de água e lama. Enquanto ela e a irmã tentavam limpar o quintal em meio a um cenário que parecia um terremoto, chegou um grupo de vicentinos: Hélio Pinheiro da Cunha, Dayse Hespanhol da Cunha Félix e Maria das Graças Silva Baggetto trazendo carinho e um lanche.
“Como é importante você tirar um tempo para ajudar os nossos irmãos, você podendo ceder um tempo para escutar, fazer amizades com nossos assistidos e também construir grandes amizades dentro da SSVP em todos os lugares por onde passar.”
Para outras mulheres que desejam viver a vocação vicentina no campo profissional, Jaine tem um convite simples e cheio de significado:
“Venha fazer parte da família vicentina, onde você pode não só ajudar nossos irmãos carentes, mas também aprender com eles e construir um elo de amizades por onde passar.”







Mariana tem 25 anos e cresceu dentro da SSVP. Com apenas 8 anos, foi levada pela tia e pela madrinha a um Avivamento Vicentino em Arujá e daquele dia em diante, a Sociedade nunca mais saiu de sua vida. Aos 12, foi convidada a participar da Comissão de Jovens. Aos 18, ainda no ensino médio, decidiu que queria cursar Nutrição. A inspiração veio de onde ela menos esperava: da própria vocação vicentina.
“Inspirada pela SSVP, encontrei uma forma concreta para contribuir para o enfrentamento da fome através do bem-estar e da alimentação.”
Hoje, 18 anos depois daquele primeiro encontro, Mariana é nutricionista formada, Coordenadora da Comissão Nacional de Jovens da Região 4, e há três anos trabalha na Casa São Vicente de Paulo de Suzano, vinculada à Conferência São Camilo, no Conselho Central (CC) de Suzano. É lá que ela cuida, todos os dias, de pessoas idosas que, muitas vezes, foram esquecidas pelo mundo.
E o cuidado de Mariana vai muito além do prato de comida. A cada quinze dias, ela leva os internos para visitar a horta comunitária, onde plantam e colhem hortaliças sem agrotóxicos, que são consumidas no lar e doadas a famílias carentes. Uma vez por mês, há piquenique na praça ou no parque municipal, com música, dança e mesa posta. Há oficinas gastronômicas onde os próprios idosos colocam a mão na massa. E há a tradição de perguntar, a cada três meses, o que cada um quer comer, uma receita que lembre algo bom, uma memória que mereça ser saboreada de novo.
Mas é na história da interna G.N., de 92 anos, que o olhar vicentino de Mariana se revela com mais clareza. Em uma manhã de agitação no lar, a idosa ficou angustiada, com a pressão elevada e o coração acelerado, uma situação delicada para quem usa marcapasso. A resposta de Mariana não foi um protocolo clínico. Foi um passeio.
“Liguei para a dona Cleusa e fomos até a casa dela, junto com mais seis internos, colher acerolas. Ela se distraiu, brincou com os cachorros na rua, conversou com a dona Cleusa, comeu acerolas, retornou diferente ao lar, sorrindo e com brilho nos olhos, me agradeceu pelo simples passeio.”
De volta para casa naquela noite, Mariana ficou pensando. Uma atitude simple, uma visita de vizinha, um pé de acerola e um bando de idosos na rua, tinha mudado o dia inteiro de uma pessoa de 92 anos e evitado um transtorno de saúde. Era o olhar vicentino fazendo o que só ele sabe fazer.
Para ela, um dos maiores desafios do trabalho é justamente mostrar esse olhar a quem ainda não o conhece. Conviver com colaboradores que desconhecem a SSVP, sua essência e seus valores, exige paciência e testemunho constante. Mas Mariana não recua.
“Gosto muito de uma frase que diz: 'Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida.' Quando você faz algo que realmente gosta, o trabalho deixa de parecer uma obrigação pesada. A diferença é que o propósito e a missão ajudam a lidar melhor com tudo isso.”
E para as mulheres que ainda estão no caminho, a mensagem é direta e cheia de convicção: “mulheres, sua profissão também pode ser missão. Viver a vocação vicentina no trabalho é unir competência e caridade, servindo com simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo, especialmente aos mais necessitados. Que seu trabalho fale de Deus, da SSVP, através de sua atitude. Não desista do seu propósito.”
Quatro histórias, um mesmo fio condutor: a certeza de que a vocação vicentina não precisa ficar do lado de fora quando se chega ao trabalho. Para essas mulheres, fé e técnica não se contradizem — se completam. E é justamente nessa integração que a missão da SSVP ganha mais braços, mais vozes e mais presença no mundo.
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