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De criança a vicentino: como as Conferências de Crianças e Adolescentes formam os vicentinos do futuro

Em 30 CCAs na Região 3, 30 na Região 6 e 25 na Região 7, crianças e adolescentes aprendem a servir brincando. Coordenadores, ex-integrantes e o Coordenador Nacional contam como isso acontece, que materiais o Conselho Nacional do Brasil (CNB) oferece

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Escrito por Ricaella Inocente

12 OUT 2026 - 12H00

Aos 10 anos, Pedro Borsato era, nas palavras dele, “uma criança triste, tímida e que não gostava de sair de casa”. Hoje, aos 20 anos, é 2º Tesoureiro do Conselho Metropolitano (CM) de Cambé/PR e futuro Coordenador de Jovens do Conselho Central (CC) de Cambé. A virada começou na Conferência de Crianças e Adolescentes (CCA) Anjo Gabriel. Neste Dia das Crianças, a história dele ajuda a explicar por que a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) vê nas CCAs um lugar de formação de vicentinos e também de pessoas.

A CCA é uma Conferência, a unidade básica da SSVP, formada por crianças e adolescentes de 6 a 15 anos. Eles se reúnem toda semana, rezam, estudam a história da Sociedade e visitam famílias assistidas, sempre acompanhados por um orientador adulto. A Regra da SSVP define que o objetivo é o “aprendizado vicentino”.

Uma ideia que vem desde os primeiros tempos

Crianças e adolescentes na SSVP não são novidade. O livro Turma do Vicente, publicado pelo CNB, lembra que, em 1851, o então presidente-geral Adolph Baudon já tratava das “Conferências dos Colégios”, criadas nos educandários franceses. Para ele, essas unidades eram “seguros viveiros para a sociedade”.

No Brasil, segundo o livro, as CCAs começaram com pais que levavam os filhos às reuniões das Conferências de adultos. A primeira registrada, a Conferência de Aspirantes São Luiz Gonzaga, em Minas Gerais, foi fundada em 6 de janeiro de 1929 e funciona até hoje. A regulamentação nacional veio com a Resolução nº 3/2001, de 23 de fevereiro de 2001. O primeiro Manual de Orientação saiu em julho de 2001.

Sobre o papel das CCAs hoje, o Coordenador Nacional da CCA, Leandro de Ávila Prudente, afirma: “a CCA tem uma responsabilidade imensa: ajudar a formar, desde a infância, pessoas capazes de olhar para o outro com amor, reconhecer a dignidade de cada pessoa e transformar a fé em atitudes concretas de caridade.”

Ele faz questão de dizer que isso não tira o direito de ser criança: “precisamos respeitar aquilo que a infância tem de mais bonito: permitir que nossas crianças sejam crianças. [...] Não queremos apenas preparar os vicentinos do futuro; queremos que eles vivam hoje, à sua maneira, os valores do carisma vicentino. A CCA planta sementes que podem acompanhar uma vida inteira.”

Boas práticas

Região 3: alegria, família e o “dia do sorvete”

A Região 3 tem 30 CCAs. A coordenadora regional, Maria Eduarda dos Santos Brito, de Cambé/PR, informa que elas estão em cidades como Cambé (4), Paranavaí (4), Campo Grande (3), Jacarezinho, Campo Mourão e Bauru (2 cada), além de Rolândia, Curitiba, Lins, Pompeia, Tupã, Marília, Garça, Rancharia, Palmital, Três Lagoas, Botucatu e outras. Para ela, o diferencial é permitir que as crianças “vivam a SSVP como crianças, com sua alegria, criatividade e espontaneidade, aprendendo desde cedo que a caridade não é apenas ensinada, mas vivida”.

Em Cambé, a CCA Anjo Gabriel, do Conselho Particular (CP) Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos, faz atividades além das reuniões semanais: piqueniques, cinema, dinâmicas, teatro, campanhas e festas de aniversário entre os membros. Quem chega ganha um mimo, como um chocolate. Tudo começou quando os orientadores perceberam que, para a garotada “pegar gosto pela oração e pela caridade”, os encontros não podiam ser enfadonhos. Em tempos de celular e redes sociais, a CCA precisava ser “um espaço de amizade real, afeto e muita diversão”. Maria Eduarda resume: “a CCA é show”.

A coordenadora da CCA do Conselho Metropolitano (CM) de Cambé, Luciane Cristina Menezes Ferreira, que tem 22 anos de SSVP e 7 de CCA, apresenta duas práticas da Conferência Nossa Senhora de Guadalupe. O Metropolitano soma 11 CCAs e cerca de 100 crianças.

A primeira é convidar as famílias a assistirem às reuniões e às atividades. A ideia nasceu quando a equipe percebeu que muitos pais não sabiam o que era a SSVP ou a confundiam com catequese. Hoje eles entendem que se trata de uma Conferência com todas as suas responsabilidades e ficam orgulhosos dos filhos. Há crianças que chegaram por causa dos pais vicentinos e há pais que chegaram por convite das crianças. Em um dos casos, o menino começou por influência de um amigo e, depois de um ano, os pais também quiseram participar. “O exemplo é maior que o convite”, resume Luciane. Os resultados aparecem no cotidiano: as crianças “se sentem importantes”, percebem que são responsáveis por alguém e muitos pais mandam mensagem agradecendo.

A segunda prática é o dia do sorvete. Quando a família assistida não recebe o grupo para a visita, o que no jargão popular é “tomar um gelo”, a coordenadora leva as crianças para tomar sorvete. A ideia surgiu de improviso, quando toda a Conferência quis ir a uma visita e não foi atendida. Luciane viu a decepção no rosto das crianças e brincou: “já que tomamos um gelo, vamos tomar sorvete”. Neste ano, só aconteceu três vezes, o que, segundo ela, é pouco, “e isso alegra as crianças e aproxima os amigos”.

Em Rancharia, a CCA São Miguel Arcanjo dividiu o grupo em dois em 27 de agosto de 2026 e visitou duas pessoas idosas. Os grupos se chamaram Fé e Esperança. Na visita, exercitaram a escuta, rezaram o terço, refletiram sobre o Evangelho do dia e conversaram sobre o Mês Vocacional. No fim, cada grupo ofereceu um bolo à família visitada.

Região 6: visitas que viram projeto

A coordenadora regional, Missilene da Silva Simões Couto, de Jaboatão dos Guararapes/PE, lembra que a Região 6 tem 30 Conferências nos estados que a compõem. Elas são “marcadas pela diversidade, pelo entusiasmo e pela capacidade de participação”. Algumas já são bem estruturadas e outras ainda estão se organizando, mas todas buscam formar crianças e adolescentes “para a caridade, a fraternidade e o serviço ao próximo”.

A boa prática que ela destaca é o Projeto Geração de Renda, da CCA São Francisco de Assis. Por meio dele, uma família assistida conseguiu uma oportunidade de gerar a própria renda. A ideia surgiu das visitas constantes: com o tempo, os laços cresceram e o desejo de ajudar também. Para Missilene, o projeto ensinou às crianças e aos adolescentes que a caridade “não é apenas fazer uma doação pontual de alimentos. É estar perto, criar vínculos, aproximar as pessoas de Deus e ajudá-las a perceber que todos têm direito a uma vida com dignidade”.

Região 7: gerações que se escutam

A Região 7 reúne 25 CCAs, no Ceará, no Piauí e em Belém, segundo o coordenador regional, Raimundo Narcélio de Abreu Melo, de Fortaleza/CE. Ele tem 26 anos de SSVP e 3 como coordenador de CCAs. O que une as unidades, diz, é a disposição de aprender e conhecer a SSVP, vista nas visitas e na entrega de materiais, e a resiliência diante das distâncias que a Região impõe.

Em Teresina/PI, a CCA São Judas Tadeu criou o Projeto Mãos Dadas, com moradores da Casa Frederico Ozanam, uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI). O projeto nasceu quando a orientadora da CCA, estudiosa do envelhecimento humano, perguntou: “O que a CCA pode fazer para contribuir com as pessoas idosas da ILPI?”. O caminho foi gradual. Primeiro veio a visita. Depois, as crianças sentiram vontade de participar da missa com os moradores. Em seguida, formaram duplas, e cada dupla escolheu uma pessoa idosa para escutar e com quem partilhar o seu dia a dia. No fim, há uma roda de diálogo em que as crianças contam o que viveram.

Segundo Raimundo, o trabalho promove “respeito, dignidade, valorização, educação cristã” e ajuda a desconstruir a ideia de que envelhecer é algo negativo. O resultado, descreve, é a integração entre gerações.

De criança a vicentino: o que fica

Os coordenadores respondem de forma parecida sobre o que a criança leva para a vida adulta. Para Missilene, “na CCA, a criança aprende, desde cedo, que servir é uma forma de amar.” Para ela, o maior legado é “formar um coração vicentino desde a infância”. Maria Eduarda explica que a criança aprende a servir, partilhar, ouvir, ter empatia e enxergar a pessoa necessitada com dignidade, e também a ser grata “pelas coisas, pelos pais e pela vida”. Enquanto Luciane fala que a CCA forma pessoas responsáveis, educadas e com senso de justiça. Mesmo quem não se torna vicentino devolve à sociedade “alguém com senso de justiça e olhar ao outro”. E Raimundo finaliza, contando que as crianças levam para a vida adulta os valores de humanização que viveram na CCA e se tornam “bons vicentinos, excelentes profissionais e pais de família”.

Três trajetórias mostram isso na prática.

Maria Eduarda diz ser “fruto de uma CCA”. Entrou aos 7 anos, hoje coordena as CCAs da Região 3 no CNB e permanece na Conferência de Jovens “que foi fruto da nossa CCA”. Os amigos que tem hoje, conta, vieram de lá.

Pedro Borsato, de Cambé, entrou aos 10 anos, por convite de um amigo. Na CCA, diz, descobriu “o valor da amizade, da fraternidade e da caridade”. Os amigos da CCA formaram depois a Conferência de Jovens Cristo Rei, que ele hoje preside. Pedro também é segundo tesoureiro do Conselho Metropolitano de Cambé e, segundo conta, será o próximo Coordenador de Jovens do Conselho Central de Cambé. Ele resume: “A CCA não mudou apenas a minha infância. Ela mudou a minha vida.”

Andresa Catarina de Oliveira Silva, presidente do CC de Jaboatão dos Guararapes e vice-presidente da Região 6 no CNB, entrou aos 14 anos, em novembro de 1998, na Conferência Mirim São Sebastião, quando as CCAs ainda se chamavam “Conferências Mirins”. Foi convidada por Missilene, hoje coordenadora regional da CCA na Região 6. Lembra da alegria de ser “um grande grupo de amigos” e das visitas, o ponto alto: o grupo vendia latinhas e papelão para ajudar um assistido a construir um espaço mais digno para morar. “Essas experiências me faziam voltar para casa olhando para a minha própria realidade com mais gratidão”, conta.

Ela destaca a orientadora, Ana Paula Alves Martins, que fazia questão de que o grupo participasse das atividades da SSVP, “para que, desde cedo, fôssemos compreendendo a grandiosidade da Sociedade”. Da CCA, ela leva até hoje a ideia de que “somos, antes de tudo, um grupo de amigos que escolheu servir”. Como liderança, aprendeu também a olhar para cada criança, “não apenas pelo que são hoje, mas pelo que podem se tornar amanhã”.

Sobre ter começado cedo, ela afirma: “Começar ainda criança fez com que a SSVP não fosse apenas uma escolha que fiz em determinado momento da vida; ela foi crescendo comigo.”

O desafio: encontrar orientadores

Maria Eduarda, Missilene, Raimundo e Luciane apontam o mesmo maior desafio. Não faltam crianças. Faltam adultos preparados e dispostos a acompanhá-las. Raimundo fala em “falta de orientadores e coordenadores”. Luciane diz: “crianças sempre temos”. Para Maria Eduarda, o orientador “não está apenas conduzindo reuniões ou atividades: ele está ajudando a formar os vicentinos de hoje e a preparar a continuidade da SSVP”.

A Regra facilita um ponto: o orientador pode ser dispensado das reuniões e visitas regulamentares de sua Conferência de origem, desde que participe das mesmas atividades na que orienta (art. 125, parágrafo único).

O caminho também passa pelos Conselhos. Em Cambé, três Conselhos Centrais ainda estão sem CCA e sem coordenadores, e o Conselho Metropolitano planeja a formação para 2027. O livro defende que se forme “pelo menos uma CCA em cada Conselho Particular”, e Raimundo faz o mesmo convite: “Vamos unir forças e implantar uma CCA em cada conselho particular.”

Como criar uma CCA

As histórias acima mostram o que uma CCA pode fazer. Mas como ela nasce? Segundo as fontes, o começo é mais simples do que parece. O Coordenador Nacional, Leandro de Ávila Prudente, descreve o caminho, e a Regra da SSVP dá o respaldo.

O que a Regra e as fontes apontam, passo a passo

1. Escolha o orientador. Leandro de Ávila Prudente lembra que é preciso “um vicentino disposto, com força de vontade e responsável”. A iniciativa pode partir do coordenador de CCA do Conselho Particular ou de alguém com afinidade com crianças. Pela Regra, o orientador deve ser maior de 18 anos e é nomeado pelo Conselho Particular (art. 125). Em Cambé, a orientação de Luciane é “formem os orientadores” e despertem em todos os vicentinos a vontade de formar novos vicentinos.

2. Avise o presidente do Conselho Particular. Ele precisa saber do projeto e dar o suporte necessário. A Regra prevê que, no Conselho Particular sem nenhuma CCA, seja nomeado um orientador “com a responsabilidade de incentivar sua criação” (art. 204, § 4º).

3. Reúna as crianças. Combine dia, horário e local fixos e convide algumas crianças, que podem vir da catequese da Conferência, de familiares ou de amigos. A Regra indica a faixa de 6 a 15 anos, a partir do período de preparação para a Primeira Eucaristia (art. 123). Segundo o Manual da CCA, é importante visitar os pais ou responsáveis, que precisam concordar com a participação.

4. Faça um primeiro encontro atrativo. Prepare uma dinâmica, faça uma oração e apresente a SSVP de forma simples. Um lanche ajuda.

5. Faça as reuniões preparatórias. Nas reuniões seguintes, explique como funciona uma CCA e apresente a estrutura de uma Conferência, seguindo o Manual da CCA. O Turma do Vicente traz 10 reuniões prontas, que Leandro descreve como “tudo bem explicadinho e fácil de usar”.

6. Funde a CCA. Se tudo correr bem, o Conselho Particular conduz a reunião de fundação, com ata, nomeação e posse da diretoria e assinatura do termo de compromisso. Os mandatos da diretoria são de um ano (art. 124).

7. Dê o primeiro passo. “Não é preciso ter tudo pronto ou uma estrutura perfeita”, diz Missilene. “Uma CCA começa pequena, muitas vezes com uma simples reunião, uma visita às famílias, um gesto concreto de caridade.”

Ficou com dúvida? O CNB tem material pronto

Quem quer começar, mas não sabe por onde, não precisa partir do zero. O CNB reúne materiais para coordenadores, orientadores e crianças.

Turma do Vicente. É o livro que Leandro indica para o passo 5. Ele traz as 10 reuniões de formação, “tudo bem explicadinho e fácil de usar”, nas palavras dele. O livro, edição 2023, foi elaborado pela equipe nacional da CCA e reconta a história dos sete fundadores da SSVP como se eles fossem crianças e adolescentes, com brincadeiras da idade. Segundo a apresentação, o objetivo é adaptar a linguagem para que as crianças “aprendam brincando”. Traz as orações tradicionais da SSVP, a história das CCAs no Brasil, os perfis dos personagens, 10 reuniões de formação, o roteiro de fundação, o roteiro básico de reunião, cantos e hinos, incluindo “CCA é show”, a música oficial da CCA do CNB, e um modelo de autorização. As 10 reuniões são: Os sete amigos na caridade; Ozanam e seus amigos fazem seu primeiro gesto de caridade; A Conferência de Caridade; Visita domiciliar; Maria visita sua prima Isabel; Espiritualidade de São Vicente de Paulo; Amarás teu próximo como a ti mesmo; Ajudar o próximo faz bem; Os vicentinos buscam viver a santidade; e Caridade organizada.

Manual da CCA. O Manual de Orientação para os Coordenadores e Orientadores de CCA, 2ª edição, de 2024, orienta as atribuições dos coordenadores e orientadores, o funcionamento da CCA e o roteiro de fundação ou reativação. A Regra da SSVP o define como o documento oficial do CNB que orienta as atividades das CCAs (art. 127).

O convite: não tenham medo de começar

Com o caminho e os materiais à mão, os coordenadores deixam o mesmo recado.

Maria Eduarda cita Isaías 41,10, “Não tenhais medo, porque Eu estou contigo”, e completa: “A CCA não é apenas o futuro da SSVP. Ela é o presente. As crianças já podem servir, evangelizar, amar e transformar realidades hoje.”

Andresa fala diretamente às crianças e aos adolescentes que hoje estão nas CCAs: “Vivam a CCA de verdade! Façam amigos, brinquem, participem [...]. Não tenham pressa.”

Aos Conselhos e Conferências sem CCA, diz: “Não tenham medo de começar. [...] Quando acolhemos uma criança ou um adolescente e o ajudamos a descobrir, desde cedo, a beleza de servir, não estamos apenas formando novos vicentinos: estamos ajudando a formar pessoas que levarão para a vida a experiência de amar, cuidar e servir.”

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