Começamos este artigo como uma pergunta simples, mas que ao mesmo tempo sugere uma profunda reflexão. Qual é o segredo da continuidade do Carisma Vicentino depois de 400 anos? Sabemos que poucas organizações se mantêm. Muitas não resistem às adaptações e necessidades dos tempos. Por isso, sucumbem. Não encantam pessoa alguma para a sua continuidade. Acabam sempre decretando: “o último, apague a luz”. O Carisma Vicentino, no entanto, está entre nós depois desses quatro séculos quando se há empreendido um trabalho comunitário em benefício dos mais necessitados. Vários grupos de pessoas, tanto no passado como no presente, têm suas vidas e seus trabalhos inspirados nas ideias e no exemplo de São Vicente de Paulo e de Santa Luísa de Marillac. Os valores espirituais, por eles deixados, permanecem constantes e duráveis.

Pode-se dizer que um dos mais importantes elementos que contribui para isso é o espírito de colaboração. Grupos com uma caminhada expressiva apoiam e dão suporte para a sua continuidade. Desde os primeiros grupos criados por Vicente de Paulo e Luísa de Marillac, até nos que foram criados depois deles, vemos ainda hoje aparecer novos grupos que aderem a esse propósito, inspiram-se e se habilitam para a continuidade do serviço aos Pobres. Portanto, o espírito de colaboração entre esses mais variados grupos pode ser entendido como sendo de importância vital para a continuidade do Carisma Vicentino.

Há uma variável não menos importante que é a organização. Os trabalhos permanecem porque existe uma sequência na linha de como estruturá-lo. Todos nós conhecemos a frase que Vicente de Paulo disse quando iniciou as atividades em Châtillon: “Esta é uma obra de caridade, porém, mal organizada”. É preciso a organização e o espírito de colaboração para que o trabalho seja realizado. Sozinhos podemos fazer algo, mas fazemos muito pouco. Quando há colaboração entre várias pessoas, vários grupos ou até mesmo em várias organizações, o trabalho é efetuado, sem dúvida, com maior eficiência e certeza de continuidade. Mas, por que colaborar? Por que tanto insistir para que as pessoas possam trabalhar em conjunto? Quais são as razões e motivações para que deixemos nossas ações individuais – e, às vezes, individualistas – para nos unirmos às pessoas que possuem os mesmos objetivos, embora sejam com metodologias diferentes? Pelo menos três razões são significativas. A primeira é a oportunidade de colaborar. Temos um único objetivo: ajudar os Pobres e necessitados a saírem da pobreza e da miséria e que necessitam do nosso apoio. Às vezes, deixamos de fazer algo de muito bom para os Pobres por considerar que tal projeto é por demais grande para as nossas possibilidades. Sabemos, de antemão, que não seríamos capazes de executá-lo. É nesse momento quando se deve ter em mente e unir-se a outras pessoas para trabalharem juntos e fazer aquilo que sozinhos seríamos incapazes de realizar. A segunda razão é a possibilidade de assumir tarefas com outras pessoas, partilhando as dificuldades e os riscos desse trabalho. Juntos, sempre se poderá ter uma visão ampliada e clara das dificuldades e dos desafios a serem analisados e vencidos. Assumir com outras pessoas os desafios e as dificuldades é, por assim dizer, estar aberto para encontrar soluções para aliviarem a pobreza e a angústia que fazem parte de muitas pessoas que vivem em situações desumanas. É também estar sintonizado com a identidade vicentina. A terceira razão da colaboração é que unindo-se com outras pessoas, nos tornamos mais fortes porque podemos partilhar nossas habilidades e nossas experiências. Cada pessoa ou cada grupo tem muitas capacidades, umas diferentes das outras e que são ou podem ser complementares no trabalho com e pelos Pobres. Unindo essas capacidades, o trabalho que realizamos com e pelos Pobres torna-se mais efetivo. São João Paulo II disse em certa ocasião: “Voltemos nossa mente e nosso coração para São Vicente de Paulo, homem de ação e oração, de organização e de imaginação, de comando e de humildade, homem de ontem e de hoje. Que aquele camponês das Landes, convertido pela graça de Deus em gênio da Caridade, nos ajude a todos a pôr mais uma vez as mãos no arado – sem olhar para trás – para o único trabalho que importa, o anúncio da Boa Nova aos Pobres”.

Cientes da importância da colaboração e da organização, passos firmes e decisivos devem ser tomados nesse sentido. Muita gente que vive em situação de vulnerabilidade necessita da ajuda pontual e decisiva para que possa sair da pobreza e da miséria. Todo e qualquer empenho direcionados nessa direção, não resta dúvida, estaremos contribuindo para a divulgação, animação e continuidade do Carisma Vicentino. 

Padre Mizael Donizetti Poggioli (Congregação da Missão-CM)

Assessor Espiritual do Conselho Metropolitano de São Paulo

 

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