Hoje, mais do que nunca, confrontamos com um mundo onde, embora globalizado, possui diferentes realidades, com diferentes interpretações. Vivemos num mundo pós-moderno caracterizado por um conjunto de mudanças sociais e culturais profundas. Assistimos a uma acelerada mudança tecnológica envolvendo as telecomunicações e o poder da informática. No campo social, ensaia-se o surgimento de novos movimentos sociais, especialmente relacionados com aspectos étnicos, raciais e ecológicos. Cada vez mais torna-se perceptível a grande tensão entre as cosmovisões, os paradigmas e os modelos de mundo que queremos. Vemos um mundo fragmentado, onde predominam a divisão e a desvinculação progressiva no modo de pensar, no modo de ver as coisas, de ser e de agir. Mais do que nunca, as coisas e as pessoas se tornam ilhas, isoladas e distantes uma das outras. Há, sem dúvidas, uma desintegração do mundo, uma ruptura do tecido social que produz uma crise de coexistência. Percebemos uma crise instalada dentro do próprio ser humano que tem consequências devastadoras. Na esfera política, assistimos a um desaparecimento da democracia com o aumento de nações que estão falidas. Nota-se na grande parte dos países um vazio institucional. Mais do que nunca, assistimos à primazia do bem individual sobre o bem comum e o desrespeito ideológico da dignidade humana e da dignidade de todo ser vivo. Vemos uma forte desigualdade entre os indivíduos, entre as estruturas e entre as nações. A cada dia, aparecem novos conflitos e novas formas de violência. Milhões de seres humanos são massacrados pela fome, pelas guerras e pelos efeitos catastróficos da mudança climática que levam milhões de crianças, de mulheres e de homens a andar errantes pelo mundo como refugiados ou como migrantes em busca de um espaço para sua sobrevivência. Sem limites e sem controle, encontramos o tráfico de seres humanos, de armas e de drogas. Surge em toda parte do planeta novas formas de escravidão tão ou mais perniciosas que as de outrora.

Quando falamos em colaboração dentro da Família Vicentina, recordamos de um ponto nevrálgico presente na sociedade onde vivemos que é trabalhar para a construção de um paradigma que vai contramaré do pensamento da sociedade atual, ou seja, procurar resgatar o sentido de proximidade e de vinculação, de encontro, de diálogo, de comunhão, não somente em relação aos membros da Família Vicentina, mas com todos aqueles que de certa forma estão vinculados a nós, como pessoas ou como entidade de trabalho e de serviço aos Pobres. O espírito de colaboração é, nesse sentido, uma voz profética que vem nos convocar a reler nossa vocação a partir dos clamores e das realidades onde vivemos. É uma voz profética que nos impulsiona a denunciar todo e qualquer paradigma de separação que destrói a possibilidade da existência pacífica da humanidade e ameaça todo e qualquer tipo de vida existente sobre a face da terra. Neste sentido, a Família Vicentina tem uma missão específica. É chamada a ser referência ao que diz respeito de um despertar de uma espiritualidade encarnada e de ser um referencial permanente de colaboração em todos os níveis da dimensão humana. A Família Vicentina é chamada a criar uma nova maneira de estar na história, uma nova maneira de crer, de relacionar-se e de agir no mundo. A Família Vicentina está e deve sempre estar em todas as encruzilhadas da vida. Ela é chamada a continuar a promover e defender a cultura da vida, da paz, da justiça, da solidariedade e da colaboração. A Família Vicentina sabe que Deus se comunica por meio dos clamores dos Pobres e, por isso, nenhum desses gritos lhes são indiferentes. Também não lhes são indiferentes os novos tipos de escravidão impetrados contra os seres humano como também a todo meio ambiente. É nesse sentido que ela é chamada a um novo profetismo no mundo de hoje. Experimentar e forjar onde quer que estejamos, por meio da colaboração, um novo sentido para a vida por meio de uma espiritualidade encarnada e por meio de uma corresponsabilidade pelo testemunho de uma vida simples e comprometida com os vulneráveis. Assim, nossa vida pode transformar o sentido de testemunho na fraternidade e na solidariedade. A opção que se faz para ajudar os Pobres, embora seja uma opção individual em que cada pessoa decide por si mesma a trabalhar pelos necessitados, ela é vivida em comunidade. Cada uma faz sua opção e acorda com os demais para trabalhar em conjunto, buscando a mesma finalidade. Ainda mais, é um serviço que deve ser empreendido com a mais alta qualidade visto que, ao servir os Pobres, estamos servindo o próprio Deus. Vicente de Paulo dizia que “Deus pede a cada um que se ponha, individualmente, ao serviço dos Pobres. São os nossos senhores. É por isso que devemos tratá-los com compreensão e cordialidade” (Coste IX, 119).

Padre Mizael Donizetti Poggioli (Congregação da Missão-CM)

Comente pelo Facebook

Deixe uma resposta