Carolina de Jesus: a escritora que fala dos vicentinos em livro

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Post feito no site de relacionamentos Facebook suscitou, principalmente entre os vicentinos, a curiosidade sobre um livro lançado em 1960. A autora da publicação na internet é a Irmã Carolina Mureb (Filha da Caridade-FC, Ramo da Família Vicentina). No último dia 5 de julho, Irmã Carolina divulgou uma foto da obra Quarto de Despejo: diário de uma favelada (editora Ática), incentivando a leitura da obra. “Atenção, Família Vicentina, leitura obrigatória”, alertava a Filha da Caridade na publicação, que obteve cerca de 60 curtidas e 10 comentários.

Irmã Carolina descreve porque a leitura de Quarto de Despejo é tão importante. “Ainda que nada substitua a experiência real da vida dos Pobres, esta obra consegue aproximar-nos dela para constatarmos quão pouco mudou e refletirmos sobre como podemos continuar marcando a vida deles por meio de nossa presença, de nosso compromisso e de nossa fé”.

Também porque a autora, Carolina Maria de Jesus, se refere aos vicentinos com muito respeito na obra, cujo trecho é transcrito a seguir. “D. Maria José faleceu. Várias pessoas vieram vê-la. Compareceu o vicentino que cuidava dela. Ele vinha visita-la todos os domingos. Ele não tem nojo dos favelados. Cuida dos miseros favelados com carinho” (sic), página 34.

O LIVRO

 

Capa do livro
Capa do livro

Quarto de Despejo é um compilado do diário de Carolina Maria de Jesus. Ela morava na Favela do Canindé, em São Paulo, e registrava a dura vida. Foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas que publicou o livro, tornando-o um best seller. A obra já foi traduzida em 13 idiomas e vendida em mais de 40 países.

A equipe de jornalismo do site SSVPBRASIL conseguiu fazer contato com Raffaella Fernandez, pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ (PNPD/Capes) e do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC-UFRJ). Ela estuda a literatura de Carolina Maria de Jesus há 20 anos e, inclusive, organizou o livro ‘Meu sonho é escrever’, lançado em 2018, e com textos inéditos de Carolina.

Raffaella não acredita que Carolina de Jesus tenha sido assistida pelos vicentinos. “Ela sempre foi uma mulher batalhadora, catadora de lixo e que sobreviveu a partir dos seus próprios recursos”.

Segundo a pesquisadora, Carolina morreu em 1977 de insuficiência respiratória. Ela morava em um sítio comprado após a publicação do livro com os poucos recursos que foram a ela destinados, pois teve que sair às pressas da favela, após ser ameaçada pelos moradores contrários à publicação. “Morre pobre, catando lixo e sem realizar o sonho de ser reconhecida pela grande escritora que foi”, lamenta Raffaella.

A pedido da equipe de jornalismo do SSVPBRASIL, a Irmã Carolina Mureb faz uma resenha de Quarto de Despejo, o livro mais famoso de Carolina Maria de Jesus, que ainda tem outras obras publicadas. Confira a seguir:

 

RESENHA: Quarto de Despejo: diário de uma favelada

Autora: Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática, 1992.

199 p.

 

“Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil?” (p.33). Carolina Maria de Jesus, moradora da primeira grande favela da cidade de São Paulo, a Canindé, que foi desocupada em meados de 1960 para a construção da Marginal Tietê, registrou esta angústia no seu diário no dia 17 de maio de 1958. Certamente, muitos dos empobrecidos aos quais servimos ainda têm os mesmos sentimentos e as mesmas perguntas. Por isso, o livro “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, uma edição dos diários escritos por esta mineira, mãe solteira de três filhos, catadora de papel, leitora e escritora voraz, continua, assustadoramente, atual.

Percorrendo suas páginas, descobrimos a dura luta diária de Carolina para conseguir dinheiro para alimentar seus três filhos pequenos e os conflitos constantes entre os moradores da favela. Ela demonstra uma consciência rara em qualquer nível social: valoriza a educação, por isso, envia seus filhos à escola, mesmo com fome e com sapatos furados; conhece seus direitos, logo, não aceita ser explorada nas taxas cobradas na favela, chama a polícia sempre que necessário, questiona figuras políticas. Em seus registros, constatamos uma aguçada e crítica consciência política que a leva a afirmar, olhando a realidade dos pobres e a prática dos políticos: “A democracia está perdendo seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquissimos. E tudo que está fraco, morre um dia. […] Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido. Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores” (p. 39).

Quando o repórter Audálio Dantas descobriu que ela mantinha diários resolveu publicá-los, primeiro, na revista “O Cruzeiro”, depois como um livro. Carolina gostava muito de ler e escrever e dizia que quando tinha fome, ao invés de xingar, escrevia no seu diário. A publicação dos seus escritos permitiu que saísse da favela, seu grande sonho, mas não da pobreza. Morreu quase esquecida pelo público e pela imprensa, em 1977, num pequeno sítio na periferia de São Paulo.

“Quarto de Despejo” é um best-seller internacional, tendo sido traduzido para 13 línguas. Carolina tem uma linguagem realista e objetiva, mas que revela um certo lirismo, e demonstra uma visão crítica da realidade. A publicação conservou a linguagem da autora mesmo quando ela contraria a gramática, incluindo a grafia e acentuação das palavras.

Diversas vezes, Carolina menciona a presença e a prática dos vicentinos na favela Canindé, destacando que eles visitavam os pobres, semanalmente, e demonstravam carinho pelas pessoas que serviam. Ela chegou a afirmar que quem protegia os favelados era o povo e os vicentinos (cf. p.12). Este é um livro que deve ser lido e relido, mas prepare-se: é uma leitura doída, angustiada, porque a autora consegue nos inserir na sua realidade e sentimos a sua tristeza, o seu cansaço, a sua angústia. Ainda que nada substitua a experiência real da vida dos pobres, esta obra consegue aproximar-nos dela para constatarmos quão pouco mudou e refletirmos sobre como podemos continuar marcando a vida deles por meio de nossa presença, de nosso compromisso e de nossa fé. Ler “Quarto de Despejo: diário de uma favelada” é também promover a cultura dos pobres e compartilhar sua cultura e modo de ver o mundo. (Irmã Carolina Mureb Santos, FC)

 

Fonte: Redação do SSVPBRASIL

 

 

 

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