Enquanto o fim do agir econômico é, segundo a Doutrina Social da Igreja, o bem comum, o fim do capitalismo, infelizmente, é o enriquecimento individual.

Em tempos de uma grande crise econômica, podemos nos perguntar: para que serve a economia? O fim último da economia não está apenas na economia, mas na sua própria destinação. E que fins devem orientar a atividade econômica? Estes podem ser o bem comum ou o enriquecimento individual, isso é, o lucro.

O eixo fundamental da conduta da vida cristã em âmbito socioeconômico é o bem comum, definido como “conjunto das condições da vida social que permitem tanto aos grupos como a cada membro alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (Gaudium et spes, n. 16).  E para o Papa Francisco, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda política econômica”. Portanto, programas de governo que negam a perspectiva do bem comum jamais deverão receber o apoio da Igreja e da Família Vicentina.

A economia de mercado é anterior ao capitalismo, ou seja, ela não nasceu capitalista. Somente a partir do século XVI, ela começa a transformar-se em economia de mercado capitalista. A lógica do bem comum é substituída pela lógica do lucro. Toda a atividade produtiva é direcionada ao único objetivo de aumentar o lucro a distribuir entre os investidores. Com a Revolução Industrial, a economia assume a filosofia do utilitarismo, ou seja, útil é aquilo que contribui no aumento da riqueza material, não importando o bem do outro.

A natureza social dos seres humanos, refletindo a comunidade da Trindade, aponta para o bem comum como princípio fundamental da política e da economia. Na perspectiva do bem comum, ninguém pode ser excluído do desenvolvimento socioeconômico. A Igreja insiste que a determinação do bem comum deve sempre partir da dignidade humana. Desta forma se supera a tendência de identificar o bem comum como mero bem-estar econômico/social. A lógica do bem comum não permite sacrificar o bem de qualquer um para melhorar o bem de algum outro, pela razão de que todos são portadores de direitos humanos fundamentais.

O bem comum consiste, em primeiro lugar, na defesa e promoção dos direitos humanos. Colocar a política a serviço dos direitos humanos é buscar o bem comum. “O bem comum pressupõe o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalienáveis orientados para o seu desenvolvimento integral” (Laudato si, n.157). Nenhum grupo social, indivíduo, organização civil ou religiosa pode se afastar do bem comum. João XXIII apontava que a realização do bem comum constitui a razão de ser dos poderes públicos.

Se o Estado é o primeiro responsável de garantir a coesão da sociedade em torno dos fins éticos comuns, o que fazer quando o Executivo, o Legislativo e o Judiciário estão envolvidos em tenebrosas transações e agem movidos por amor ao dinheiro? Vivemos mais um triste capítulo de uma história de corrupção protagonizada por estes que governam contra seu próprio povo. Se “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tim 6, 10), o apego às riquezas é a maior inimiga do bem comum.

Como ensina Papa Francisco: “se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor”. Quando a corrupção política se impõe como forma de governo, é preciso insistir em princípios éticos para desmascará-la. A noção e implantação do bem comum, que desempenha um papel central e unificador para uma vida mais digna, são essenciais nesta árdua e urgente tarefa de lutar juntos para eliminar as várias formas de pobrezas. Esta deve ser a missão abraçada com a força dos braços e o suor da fronte de cada membro da Família Vicentina, nestes 400 anos de celebração do seu carisma!

 

Padre Alexandre Nahass Franco (Congregação da Missão-CM)

Assessor Espiritual do CNB

 

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