O amor que Vicente de Paulo tem a Deus é manifestado pelo amor que tem ao próximo. Próximo aqui é entendido conforme a parábola do Samaritano. Ao ser interrogado “E… quem é meu próximo”, Jesus fala da atitude de serviço que foi prestada àquele homem caído na beira do caminho. Faz-nos entender que o “próximo” não é qualquer pessoa. O próximo é, prioritariamente, aquele que necessita com urgência da ajuda a ser prestada.

Ainda mais, Jesus faz-nos compreender que “próximo” é aquele a quem mais necessita e que, para ajudá-lo faz-se necessário modificar o nosso roteiro. Faz-se necessário mudar nosso itinerário… É preciso recalcular o tempo ou, às vezes, esquecer-se dele. É necessário colocar a mão no bolso, dispondo, muitas vezes, de nossos parcos recursos para ajudar a quem pouco ou ainda nada possui. É preciso esquecer-se de si mesmo, esvaziar-se de tudo o que nos prende e ter uma verdadeira atitude de empatia e solidariedade. Isso tudo exige ação. Nada disso acontece se, em dada situação, continua-se de braços cruzados e imersos no comodismo da não-ação. Por isso, é que Vicente de Paulo não é considerado um contemplativo na forte expressão da palavra. Ele é chamado sempre de místico na ação. A espiritualidade de Vicente de Paulo é uma espiritualidade que se manifesta e se dá pela ação. É muito clara a relação que Vicente de Paulo estabelece entre evangelização e serviço aos Pobres. Vicente de Paulo assume os dois serviços como complementários um do outro. Melhor dizendo, na expressão da espiritualidade vicentina não há diferença entre uma e outra.

Na carta que escreveu ao Papa, Vicente de Paulo dizia: “O povo morre de fome e se condena”. O povo “se condena” porque não há assistência religiosa. Na época, os padres estavam concentrados, a grande maioria, na capital Paris. Nas paróquias do interior quase não se encontram padres para o atendimento religioso. O próprio Vicente de Paulo afirmava que ainda que sendo poucos os padres no interior do país, ainda alguns deles eram totalmente despreparados tanto na teologia quanto nas orientações de pastoral. O povo – dizia também na carta ao Papa – “morre de fome”. Os recursos eram escassos. A terra, por falta de adubo, não produzia alimento suficiente para a população. As técnicas de cultivo eram rústicas. Assim, Vicente de Paulo assume, em duas vertentes, evangelizar e servir aos Pobres, num mesmo projeto e numa mesma mística espiritual. É nesse sentido que Vicente de Paulo fala aos seus missionários: “Evangelizar os Pobres não consiste unicamente em ensinar os mistérios necessários à salvação, mas em fazer as coisas preditas e prefiguradas pelos profetas, tornando eficaz o Evangelho. Que nos dediquemos ao cuidado dos Pobres. Não foi isto o que fez nosso Senhor e fizeram muitos santos que não apenas rezavam pelos Pobres, mas também os consolavam, socorriam e curavam? Não são nossos irmãos? E os abandonamos quem imaginais que os assista? De maneira que, se houver alguém entre nós que pense estar na Missão para evangelizar os Pobres e não para socorrê-los, para remediar suas necessidades espirituais e não as temporais, respondo que devemos assisti-los e fazê-los assistir de todas as maneiras, por nós e por outrem, se quisermos ouvir estas consoladoras palavras do soberano Juiz dos vivos e dos mortos: “Vinde, benditos do meu Pai; possuí o Reino que foi preparado para vós, porque tive fome e me destes de comer; estava nu e me vestistes; doente, e me socorrestes”.

Vicente de Paulo compreende que os Pobres são “mestres e senhores”. Dedica toda a sua energia para empreender uma das mais ousadas investidas contra a pobreza e a miséria, tanto no nível espiritual, como no nível material. Mas não o faz gratuitamente: tem a firme convicção e é impulsionado pelo fato de entender de que na Sagrada Escritura, Deus manifesta sua predileção pelos Pobres. Consequentemente não lhe é singular a insistência de que os Pobres são nossos irmãos e são Eles, pela sua eminente dignidade, os primeiros que têm direito ao anúncio do Evangelho. Vicente de Paulo começa seu trabalho a partir dessa “descoberta”: os Pobres são necessitados de pão e da Palavra de Deus. Mas, o itinerário de fé de Vicente de Paulo, a partir dessa descoberta, não para. Outras experiências decorrem dessa aproximação dos Pobres. Ele percebe que os Pobres, Eles mesmos, são agente de evangelização. Nunca se devem desprezar os Pobres: é preciso escutá-Los, aprender com Eles e dar-lhes tempo além do que é necessário para estar com Eles.

 

Padre Mizael Donizetti Poggioli (Congregação da Missão – CM)

Assessor Espiritual do Conselho Metropolitano de São Paulo

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